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Um bom exemplo

19 nov

Nós temos falado aqui há algumas semanas que é possível sim juntar jornalismo ao entretenimento sem desvalorizar a notícia, sem mentir ou tratar de forma pobre a informação. Falamos sobre o “Rockgol” como um bom exemplo de experiência nesse sentido, mas a atração não era essencialmente jornalística. Portanto, qual seria um bom exemplo dessa tendência na imprensa? Gostaria de indicar algo brasileiro, mas tudo que me vem à mente é o trabalho da americana Courtney Nguyen com o tênis.

Conheci Nguyen, ou melhor, a “Forty Deuce” através do Twitter, quando eu procurava (e surpreendentemente achava) pessoas tão viciadas no microblog e no tênis quanto eu. Lá e no seu blog, ela fala sobre o esporte com uma perspectiva muito singular. Sendo mais clara, engraçada. Principalmente quando escrevia sobre detalhes curiosos dos jogos (como esse post hilário sobre o match-point do Andy Roddick).

Nguyen, que tem mais de 6.600 seguidores em suas duas contas no Twitter, começou a viajar para os torneios de tênis no mundo todo, conseguiu credenciais e começou a fazer um trabalho de cobertura muito mais completo do que se encontrava nos sites de notícia tradicionais. Por isso, foi contratada pela Sports Illustrated para comandar o blog de tênis do portal. Se há alguém que me inspirou no meu blog e me provou que não precisava ser caretinha para escrever sobre esporte, foi ela.

Entrevistei por email (por isso as perguntas estilo questionário) a “C Note” para que ela explicasse melhor a receita do seu sucesso e desse sua opinião sobre o “confronto” entre a mídia tradicional e as redes sociais.

Quando você começou a seguir tênis e por quê? Você sente que as pessoas têm uma visão errada do tênis, como se ele fosse entediante, quando na verdade é divertido?

Eu sempre segui tênis. Meu tio, que costumava cuidar de mim, era um grande fã na época de Ivan Lendl, Boris Becker e Stefan Edberg, então eu tenho algumas memórias desses caras. Mas eu voltei para o jogo mesmo por volta de 2006 e tem sido meu esporte favorito desde então. Eu costumava citar estatística de beisebol de cor. Agora eu consigo dizer a qualquer momento em qual cidade cada tenista está. É uma grande mudança.

Eu acho sim que o tênis sofre com um problema de imagem. As pessoas acham que só há brancos jogando, tomando champanhe, com pessoas de “country club” elegantes vendo silenciosamente duas pessoas batendo numa bola. Confesso que também achava isso quando era mais jovem. Mas as coisas mudaram totalmente agora. O que digo para meus amigos é “me dê uma hora. Assista por uma hora e eu prometo que você vai gostar mais do que gosta agora”. Nunca falha, O jogo é emocionante, é rápido e o fato de ser uma batalha um contra um o diferencia da maioria dos esportes.

Como você define o seu estilo de escrita?

Não sei se escritores gostam de responder essa pergunta. Requer um certo nível de auto-conhecimento que a maioria de nós tenta manter para não ficarmos no mesmo lugar. Não sei qual é meu estilo, mas acho que posso dizer qual espero que seja. Eu tenho mais orgulho do meu trabalho quando sinto que há um ritmo em como eu construo as frases e parágrafos, para que eles sejam não só fáceis de ler, mas também divertidos. Para isso, não tenho problema em deixar de lado a gramática ou regras para que soe do jeito que eu quero. Quando escrevo sobre tênis, quero que as pessoas se divirtam, porque elas conseguem sentir a paixão e o gosto que eu tenho escrevendo sobre o esporte. Claro, elas também dão uma ou duas risadas. É muito difícil escrever mais que três frases e não injetar algum humor em algum lugar, mesmo se for apenas para mim.

Beyond the Baseline: o novo blog no Sports Illustrated

Você concorda que essa abordagem diferente do esporte se encaixa bem na era das mídias sociais, quando o esporte é seguido por um público mais jovem?

Absolutamente. Blogar é uma grande ferramenta, não só para jovens criarem uma plataforma e praticarem sua habilidade de escrita, mas também é um jeito de vários pessoas encontrarem informações e comentários nos dias de hoje. O advento do Twitter trouxe certamente mais cinismo e desconfiança dos jovens em relação à imprensa de tênis tradicional. Certas opiniões injustas e incoerentes de jornalistas ficaram mais evidentes no Twitter, o que pode levar a uma perda de autoridade. Blogueiros e tuiteiros ajudam a preencher esse vácuo. Há certos blogueiros que eu sigo porque eles são bons em monitorar histórias pequenas do que as grandes. Há outros que eu sigo porque adoro suas opiniões e sei que eles são justos e objetivos. E há os que eu sigo que são muito injustos, mas eles me divertem de uma certa maneira. Ter a possibilidade de escolher e criar minha própria “imprensa” aumenta minhas chances de aprender e curtir o jogo. Quando se trata de comentários, opiniões ou análises, tenho que dizer que confio mais em vários blogueiros e tuiteiros do que muitos na mídia tradicional.

Blogueiros nunca vão substituir jornalistas, nem deveriam. Se há algo que eu diria para os jovens blogueiros ou tuiteiros, é que eles devem ser justos quando se trata de jornalistas. Eles que têm os contatos e as fontes que dão a eles a possibilidade de descobrir fatos e reportar notícias. Não posso pegar meu celular e ligar para o empresário da Maria Sharapova para confirmar algo. Eles podem. Tudo se perde sem os jornalistas e ainda bem que o tênis têm ótimos.

Você já sentiu preconceito quando conheceu jornalistas “tradicionais” por ser blogueira? Como é seu relacionamento com eles?

Minha experiência sempre foi bastante positiva quando lidei com outros repórteres, oficiais dos torneios e pessoas de comunicação do circuito. Não concordamos o tempo todo e às vezes eu ‘tenho uma preguiça’ do que eles escrevem ou dizem, mas não significa que eles sejam más pessoas ou não fazem bem seu trabalho. O esporte é cheio de gente de muita qualidade e se não fosse o caso, não ia querer fazer parte disso.

Dito isso, claro que eu tive alguns problemas no caminho, quando senti que fui subestimada ou desrespeitada simplesmente porque sou blogueira. Eu tenho cara de jovem, sou a nova garota do pedaço. Quando você começa, pode ser um choque, especialmente porque você percebe como a sala de imprensa é cheia de cliques e você não conhece ninguém. Mas isso muda com o tempo e eu tive muita sorte de conhecer pessoas que me apoiaram. Assim que isso aconteceu, a sala de imprensa não parecia mais tão solitária.

C Note clicou a mochila Hello Kitty da Serena Williams

Você deixou seu emprego anterior para ser uma escritora de tênis. O que motivou essa decisão?

Eu fui advogada por sete anos e chegou um ponto que eu percebi que aquele não era o tipo de escrita de que eu gostava. Eu passava 12 horas por dia escrevendo cartas, emails e pautas, mas os 15 minutos que eu tirava para escrever um post no Forty Deuce eram o momento mais feliz do meu dia. Queria uma plataforma criativa e mais tempo para escrever. Assim que eu percebi que eu preferia ser uma escritora do que ter o prestígio e o dinheiro que a advocacia me dava, a decisão foi instantânea e muito fácil.

Como o Twitter ajudou seu blog, além de trazer uma nova audiência? Você se sente melhor informada com as mídias sociais?

Sou uma grande fã do Twitter, como muitos sabem. Se eu não checo o Twitter a cada 30 minutos pelo menos, me sinto totalmente fora de órbita. É horrível e grosso quando estou com família e amigos. Como blogueira independente, o Twitter me ajudou demais porque há mais pessoas no Twitter do que leitores de blogs. Assim que eu aumentei meus seguidores, pessoas dos torneios e circuitos começaram a notar. Eles não sabiam do Forty Deuce ou quem eu era, mas conheciam o “fortydeucetwits” e sabiam que eu tinha mais seguidores que muitos jornalistas. Então, quando eu pedia credenciais, as pessoas que tomavam essas decisões pelo menos sabiam quem eu era, o que já era metade da briga. Isso ajudou muito em me dar um empurrão inicial. Da mesma forma, isso me ajudou com empregos freelancer como jornalista, porque eu era conhecida no Twitter. Na verdade, acho que minha presença lá fez com que as pessoas pensassem que eu era mais importante do que eu realmente era.

Que coisas você teve que mudar no seu blog desde que se mudou para a SI? Linguagem, conteúdo, responsabilidades, essas coisas.

Bom, eu não escrevi nada para o Forty Deuce desde que me mudei para o SI, o que é mais resultado de falta de tempo. Eu estou o tempo todo com o SI, então passo meus dias monitorando notícias, lendo o Twitter, escrevendo e, claro, vendo tênis. Em média, eu passo provavelmente 14 horas por dia fazendo algo relacionado a tênis. Isso soa insano, mas é bem normal para mim. É quanto eu trabalhava quando era advogada e não é tão diferente do que eu fazia quando ficava apenas no Forty Deuce.

Mas eu pretendo escrever para o Forty Deuce enquanto trabalho para o SI, então acho que as mudanças são basicamente linguagem e tom. Posso ser mais livre no Forty Deuce do que no SI, mas não tanto como eu era. Vou precisar de um tempo para acertar isso, mas espero voltar a blogar no Forty Deuce durante as férias do tênis. Deus sabe que tenho muitas histórias desse meu ano de viagens que eu adoraria compartilhar.

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Os jornalistas hoje se dividem entre os que abraçam as mídias sociais como complemento de seu trabalho ou rejeitam as mesmas pelo seu apelo muito popular. O fato é que o repórter que está atento à internet tem muito mais noção da repercussão dos fatos, do que interessa aos seus leitores/espectadores e tem uma resposta bem imediata em relação ao que faz. Essa proximidade com o público costuma trazer um pouco de informalidade para a maneira com que os jornalistas escrevem e isso não é necessariamente negativo.

Pessoalmente, vejo o trabalho da C Note como um grande tapa na cara de todos que acham que o esporte só deve ser relatados somente com base em estatísticas, sem espaço para descontração. Admiro o time dos jornalistas bem-humorados. Eles geralmente não são arrogantes de achar que suas opiniões são a verdade, possuem auto-crítica e conseguem fazer ótimas relações entre o esporte e outras áreas da sociedade. Com bom gosto e respeito pela informação.