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Porque se formar é deixar as certezas para trás

30 out

por Marcela Lupoli

Quando abri a porta de casa na sexta-feira, dia 21, e na manchete da Folha li: “Gaddafi é capturado e morto”, pela primeira vez pensei que talvez não devesse mais assinar jornal impresso. Esse pensamento me fez retornar a 2008, ano em que comecei meu curso na ECA, e relembrar as discussões que agitavam a Academia naquela época.

Túnel do tempo:
Mais um dia que começava cedo no Departamento de jornalismo. Os jormats 08* adentravam as salas empolgados e falantes. A menina alta e magra, sem estojo, entrava na sala com sono. Com o jornal nas mãos, perdia-se em pensamentos nos editoriais até que encontrava a pequena de olhos azuis e gritava “meu, isso aqui é genial”. Enquanto isso, um grupo se aproximava lutando pelos restos daqueles papéis, mais precisamente pelo muitas vezes menosprezado suplemento esportivo. A moça séria, inteligente, de mochila do Corinthians, com estojo, sempre era vitoriosa, o esporte era dela. Os meninos, os 8 solitários homens, tentavam se encontrar naquele girlie show. A trilha sonora era um oferecimento dos plec-plec nos teclados. Jormats 08, primeira sala 2.0 do CJE*.

Em uma aula dessas, a professora queria entender o que os fizeram escolher essa árdua profissão. “Eu era bom em tudo”, “eu quero isso desde os três anos”, “meu amigo prestou ECA”, “eu sou uma raposa”. Impressionante como aqueles bixos* gostavam de falar, tinham opiniões e comentários sobre tudo. Mesmo assim eram assombrados pela maior discussão acadêmica da época: o fim do impresso.

A garota dos editoriais escutava: “convergência, blablabla”, “mudanças, blablabla”, “quedas nas vendas, blablabla”. Mas ela tinha certeza de que essa profecia não se cumpriria. Eles não contavam com a fidelidade do público, com a fidelidade dela ao prazer físico de sujar as pontas dos dedos com as páginas pela manhã.

Voltamos a 2011.
Traí o jornal impresso. Pensei, mesmo que por um segundo, que ele não faria falta pela manhã. Minha fidelidade era à leitura, não ao papel. Qual o ponto de ler novamente a morte de Gaddafi? A sensação era de que eu já sabia sobre aquilo há séculos. Mesmo que o jornal trouxesse novas análises em seu interior, ele apostou em sua manchete que o destaque era aquela notícia, aquela “novidade” de um século atrás. Desde aquelas discussões sobre convergência de 2008, o jornal impresso pouco mudou. A fonte ficou mais escura (o que me lembra os jornais panfletários da USP), os textos cada vez menores, as páginas mais coloridas. O ponto é: é mesmo necessário fazer com que o jornal pareça uma página da internet? Se o público quisesse uma página da internet ele não iria simplesmente à própria?

Túnel do tempo (2008):
A garota dos editoriais comenta com a menina bonita que a publicação que ela mais se empolga em ler é a recém lançada Piauí.
Menina bonita diz: “É o maior clichê aqui dizer que gosta da Piauí, né?”

2011.
Superado o trauma de ser uma bixete* clichê, continuo reafirmando, agora sem medo das represálias, que a publicação impressa que mais me empolga é a revista Piauí. Talvez porque sempre tenho a sensação de que a revista falará sobre algo que pode até já ter sido discutido imensamente na mídia, mas o fará de forma original que resultará em uma análise nova (da qual eu posso até discordar, mas que me fará pensar). Além disso, ela se importa com o prazer que dará ao seus leitores. Você não lê a Piauí somente para se informar, mas também porque isso te dá prazer.

O fundador da Revista, João Moreira Salles, em entrevista no ano de 2007:
“Posso afirmar com segurança: a piauí não é uma revista chata. Há cadernos culturais pelo País que as pessoas lêem como criança comendo espinafre, quase que por obrigação. A piauí não é assim, ela é bem humorada. Eu e o Mario Sérgio [Conti, editor da revista] insistimos para que ela tenha humor. O que não pode acontecer é confundir chatice com leitura. Não se lê a piauí como se corre na esteira – que, aliás, é a coisa mais chata do planeta.”

De 2008 até hoje, a Piauí continua com seus textos enormes, suas fotografias instigantes, suas capas irônicas. Indo na contramão de tudo o que acreditavam que salvaria o impresso. E são todas essas características que a distanciam da aposta dos jornais tradicionais que a fazem um sucesso editorial. Em 2008, todos acreditávamos que a lógica era cortar o máximo de palavras possíveis, investir em um layout didático e secar os textos cada vez mais. Era essa nossa resposta para os desafios do impresso.

Não é possível comparar uma revista de 60 mil exemplares com um jornal de 300 mil. Entretanto o sucesso da publicação de Moreira Salles ensina algo importante para as outras publicações brasileiras: nem sempre a resposta é óbvia.

Penso nos alunos que estarão prestando Fuvest em um mês. Penso se procurarão essas respostas não óbvias, penso se já virão com preconceitos conservadores sobre o papel do jornalismo. Torço para que eles tenham menos certezas do que tivemos.

*jormat08: apelido da turma de Jornalismo matutino da ECA-USP que entrou em 2008.

*CJE: departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP

*bixos: como os calouros da USP são chamados

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