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Manchete diferente, mesmo jornalismo

30 out

por Sheila Vieira

Estava eu passando por minhas leituras para o TCC, quando me deparei com este texto retirado de um Congresso de Ciências da Comunicação realizado em Novo Hamburgo em maio de 2010. É basicamente um comparativo entre o Lance!, maior jornal esportivo do país, e o caderno de Esportes da Folha de S. Paulo.

A parte engraçada: o texto tem um ano e meio e já está bastante atrasado.

Mas não é culpa dos seus autores. O caderno esportivo da Folha, que sempre foi conhecido por ser o que mais abre espaço para a parte política desse assunto, realizou uma mudança visual que a aproxima justamente do…. Lance! Ironias do jornalismo.

A análise feita pelos pesquisadores de Curitiba deu as seguintes características para o Lance!:

– Destaque total para o Campeonato Brasileiro

– Critérios principais de notícia: popularidade, repercussão e polêmica

– Linguagem específica do esporte, gírias e bordões

No mesmo texto, a Folha foi retratada assim:

– Textos formais

– Menos páginas

– Mais política, contexto e ploblematizaçào

– Mais destaque para futebol internacional e outros esportes

Boa análise. Mas faltou dizer uma coisa: O FORMATO!

O “Esporte” da Folha era na época em formato standard (aquele difícil de abrir), enquanto o Lance! é um tabloide (o fácil de abrir). Inspirado nos diários esportivos da Europa, o Lance! sempre apostou em manchetes e fotos gigantes, com exclamações, muitas cores, textos pequenos, divididos em inúmeras seções (muitas desnecessárias, mas que dão ritmo e facilitam a leitura), um visual meio poluído, que dá para “ler” apenas “passando o olho” dentro do ônibus.

Nada de errado nisso. É simplesmente a proposta do jornal. Deu tão certo que “aposentou” a Gazeta Esportiva e fez com que o antes “reduto da política esportiva” (o caderno da Folha) ficasse mais parecido com ele. Desde maio de 2010 (enquanto os autores daquele texto apresentavam seu artigo), o “Folha Esporte” também é um tabloide, com manchetes e fotos gigantes, muitas cores, textos pequenos (copie o resto do parágrafo anterior aqui).

Não, esse não é o jornal de hoje. Usei essa imagem para não precisar escanear. Vocês entendem, né?

Comprei os dois jornais neste domingo, dia 30 de outubro. Peguei primeiro a Folha. Na capa, uma foto gigante de Ralf e a manchete “pequenos no caminho” (sem letra maiúscula mesmo), sobre o jogo do Corinthians com o Avaí, pelo Brasileiro. A matéria abre o caderno, seguindo o visual diferente da capa. Ao lado, um texto sobre o Palmeiras e uma coluna (uma não, A coluna do Tostão).

Nas páginas seguintes, uma lembrança da velha Folha Esporte: título em fontes padrão sobre o Santos e o São Paulo. Em seguida, uma “matéria” sobre a reforma do Maracanã. Coloquei aspas porque, na verdade, é um uber infográfico com um pedacinho de texto ao lado para cumprir o protocolo. A Folha adora infográficos.

Aí sim! Páginas seguintes: uma entrevista com Luiz González de Alba, ex-dirigente estudantil mexicano que sobreviveu a um massacre numa universidade em 1968 (repórter no México cobrindo o Pan + gancho do barraco na USP = na mosca). O Pan 2011 tem as suas páginas, mais algumas com tabelas e resultados (muito mais espaço para isso do que havia no formato standard) e F1 na contra-capa.

Vamos ao Lance! agora (edição de São Paulo, ok?). Manchete: “Para o líder!” (primeira nas incontáveis exclamações em títulos). O jornal fez uma ligação entre o caso da descoberta do câncer de Lula e a homenagem que o Corinthians planejava fazer ao ex-presidente. Para não afastar são-paulinos, Lucas, do São Paulo, tem metade da capa para ele.

As tabelas e resultados aparecem no começo e no fim e a inspiração da Folha nelas fica ainda mais evidente. As editorias são os principais confrontos do Brasileiro, ou seja, Corinthians x Avaí, Vasco x São Paulo, etc. Os títulos são mais informais. “Vai ser 3 a 0 para nós” é a chamada para o texto do clube de Itaquera, uma frase do goleiro Renan (que, por sinal, errou sua previsão).

“Segura a bronca!”, a manchete do São Paulo, tem uma linha fina assim: “Quem se habilita? Sem três dos principais jogadores, chegou a hora de alguém chamar a responsabilidade. Retrospecto recente não é bom, mas é preciso mudar”. (Nota minha: “chamar a responsabilidade” é o meu clichê preferido do jornalismo esportivo).

Porém, o texto em si tem um tom bem diferente… e convencional. Não há questionamento direto de nenhum atleta, apenas fatos, um pequeno panorama da situação do clube no campeonato e algumas frases. Faz sentido, já que o repórter não é necessariamente o que redige os títulos e linhas finas, e porque a intenção é passar mais o clima esperado para o jogo do que dar informações pontuais que podem ser mostradas em fichas ao lado do texto.

Kitadai: um "incidente" e dois relatos iguais

Passando por manchetes como “Se cuida, Messi” (assunto: Neymar, claro), “Sem bruxaria” (Halloween + Mago Valdívia + Abóbora gigante na página), “O Maraca é nosso” (versão Lance! do uber infográfico da Folha), “Vettel = Fangio” (o alemão alcançou a marca de 28 poles do ex-piloto), “Heróis da resistência” (rúgbi), “Foi tudo muito ruim” (judoca brasileira sobre o Pan), chegamos ao fato polêmico do dia: Felipe Kitadai.

Na Folha: “Logo no início da luta contra Aaron Kunihiro (EUA), ontem, o brasileiro fez muita força para aplicar um golpe e defeca no quimono. O uniforme, branco, ficou manchado, denunciando o incidente”.

No Lance!: “Durante o combate, o brasileiro defecou no quimono. E a situação ficou ainda mais visível, porque o seu traje era branco”.

Sim, você leu praticamente a mesma coisa.

Enquanto a Folha busca uma aparência de tabloide, tentando dialogar melhor com o público que acompanha de perto o esporte, sem deixar de lado suas matérias “problematizadoras”, o Lance! faz jornalismo com essa roupa, mas seus pequenos textos, informações e conteúdo bruto seguem o mesmo padrão dos outros. Os opostos acabaram se aproximando e virando quase a mesma coisa. Ironias do jornalismo.

O Pan na Record: ótimo, só que ao contrário

22 out

por Sheila Vieira

Reclamar das transmissões da Globo é como falar mal da comida da sua mãe: quando você não tiver, vai sentir falta. Essa é a sensação da maioria das pessoas ao assistir ao Pan-americano de Guadalajara pela Record neste ano. Porém, antes de ficarmos saudosistas e colocarmos #VoltaGalvão nos Trending Topics, vamos pensar um pouco no que exatamente nos incomoda.

Narradores que gritam descontroladamente

Ninguém quer um narrador de velório numa transmissão, afinal, esporte é algo que lida com torcida, um certo orgulho nacional e histórias de superação. Mas, como toda boa narrativa que se preze, há momentos mais calmos e o clímax. 

Não há razão para manter um ápice em todos os segundos de uma partida por um motivo bem claro: telespectadores não são burros e sabem quando se está forçando a barra. O narrador deve economizar o grito para momentos realmente marcantes. Um belo exemplo é o “Olha a Jamanta” de Everaldo Marques na NFL: 

Tive o privilégio de ver isso ao vivo. 

Repórteres inconvenientes de zona mista

Atletas dando entrevista logo após uma partida ou prova servem apenas para uma coisa: provocar frases bizarras e sem nenhum sentido. O que é muito compreensível. Tente fazer um esforço físico descomunal e em seguida discorrer sobre o realismo mágico. Não rola. Mesmo assim, eles param, tentam formular frases que façam sentido e sorrir. Até que o repórter começa a fazer um TALK-SHOW no meio da zona mista. Veja (a partir de 2min e 20s): 

 

A repórter Adriana Araújo também, digamos, foi bem animada ao lado de Thiago Pereira. Não achei o vídeo, mas encontrei o relato do blog UOL Esporte Vê TV:  

“Ele me deu um abraço molhado e dourado depois que ganhou o primeiro ouro do Brasil no Pan. Mas ontem ele ganhou outra medalha e nós não vimos ele no pódio. Eu quero te pedir outro abraço hoje à noite. Vamos combinar um abraço depois que você sair da piscina?”, perguntou Adriana, que recebeu um discreto “beleza, fechado” do atleta.

Beleza, fechado. 

Não vejo problemas em ser informal, mas tudo tem seu tempo. Se você quer mostrar um lado diferente e mais descontraído dos atletas, tente puxar um assunto diferente numa entrevista coletiva (no final) ou exclusiva, quando a adrenalina da competição já passou. Mas, PELAMORDEDEUS, nunca pegue os braços de um nadador que acabou de sair da piscina e puxe-os para cima. Isso é tão sem noção quanto o atleta tomar seu microfone e tacar na piscina. 

Reportagens melodramáticas

Usar uma narrativa menos robotizada numa reportagem é ótimo, refrescante, chama a atenção. Mas saiba escolher suas referências. A matéria no dia seguinte da lesão da Jaqueline, por exemplo, me lembrou aqueles episódios pós-acidente com amnésia das novelas da Thalia. 

O caso Leonardo de Deus (que ganhou o ouro, foi desclassificado por uma suposta irregularidade na touca e teve o resultado devolvido) foi contado no dia seguinte pelo programa “Hoje em Dia” como um filme de suspense: quem estava vendo pela primeira vez o ocorrido descobriu que ele realmente ficou com o ouro só no final. Desnê, para dizer o mínimo. 

Agora vamos pensar em quais dessas coisas nós vemos também na Globo: 

– narradores gritando descontroladamente: o Galvão é irritante, mas sabe ficar quieto na hora certa, afinal, a voz dele não aguenta mais tanto.

– repórteres inconvenientes na zona mista: nope. Você pode odiar o quanto a Globo monopoliza as transmissões, defende a CBF, não investiga certas coisas, mas não pode negar um fato: os repórteres de lá são BONS. Eles entendem do esporte, têm experiência e sabem dosar o sério e o trivial.

– reportagens melodramáticas: hum… não mais. Agora a Globo investe mais em reportagens mais ligadas ao humor.

No ano que vem, teremos as Olimpíadas na Record, no Sportv e na ESPN. Qual canal você escolherá?