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10 momentos Epic Fail da festa da CBF

6 dez

Eu havia prometido não assistir ao prêmio Craque do Brasileirão, promovido pela CBF e pelo Sportv, porque queria escutar os comentários de Juca Kfouri sobre Sócrates na ESPN no mesmo horário (sei que ele escreveu muita coisa, mas queria vê-lo… enfim). Mas a sucessão de gafes comentadas pelo Twitter me ganhou.

Sou mórbida e gosto de gafes. Beijos.

Vamos então pensar nos 10 motivos para o Epic Fail da premiação desta segunda:

1 – O problema não é ser super produzida. É ser mal produzida.

Foi um dos meus tweets durante a premiação. Por mais que as pessoas adorem um motivo para descascar Luciano Huck, Glenda (sem paciência de googlar o sobrenome) e Tiago Leifert, eles fizeram o que podiam diante da organização nula da premiação. Vídeos que demoravam para serem passados (muitos deles pareciam editados no Movie Maker), envelopes que não chegavam, indecisão sobre quem falava em qual momento, etc.

Tudo isso mostra falta de ensaio. Numa festa que pretende imitar o padrão “Oscar”, isso não pode acontecer, como não aconteceu no ano passado, em que tudo correu razoavelmente bem. Não acho que o erro esteja no formato. Por mais que a Bola de Prata Placar/ESPN tenha mais tradição e prefira algo mais “low-profile”, se os veículos tivessem mais recursos, certamente fariam uma festa maior.

2 – Aldo Rebelo avulso

O mundo dá voltas. Aldo Rebelo numa festa da CBF. Pois bem, o Ministro subiu ao palco totalmente perdido, sem saber o que fazer. Glenda tentou ajudá-lo, Huck gritou “dá pra ler aí, Ministro?”, enquanto Rebelo procurava sem sucesso a tela na qual estava seu texto. Ele leu pausadamente, com a Glenda quase ditando tudo e depois alguém o tirou do palco. Épico.

3 – Huck alfinetando o Leifert

Nós amamos odiar o Huck. Claro, ele ficou famoso apresentando um programa cuja atração principal era uma gostosa com fantasia de brechó, casou com a linda da Angélica, copia reality shows americanos que ‘mudam a vida das pessoas’ (Gugu faz isso desde os anos 90) e é amigo dessas celebridades globais felizinhas. Mas ele foi o que se saiu melhor nessa premiação, justamente porque não fez muita questão de esconder seu desconforto com os erros da produção. Não satisfeito, ainda fazia cara de preguiça e comentários “awkward” depois das piadas do Leifert.

4 – Leifert querendo consertar tudo

Antes a moda era gostar do Leifert. Aparentemente, agora é odiá-lo. Nunca fiz parte de nenhum desses times. Acho que ele é um apresentador competente, engraçado, um pouco repetitivo e que implantou uma informalidade na hora de fazer seu trabalho que trouxe uma consequência indesejada: o status de celebridade. Como sabemos, celebridades costumam ser rejeitadas na internet. A reação de Leifert na festa foi fazer o “Ricky Gervais”, ou seja, colocar um pouco o dedo na ferida. Não deu muito certo. A coroação foi a tentativa de fazer Diego Souza ensinar uma dança a Geraldo Alckmin. O jogador ignorou solenemente.

5 – Geraldo Alckmin avulso

Copie aqui a parte do Aldo Rebelo.

6 – Rogério Flausino e Nando Reis

HE’S EVERYWHERE! Flausino não perde uma e a sua super exposição fez mal até ao Jota Quest, que não é uma banda tão ruim como nós esbravejamos. Escolha do repertório: Fio Maravilha e É Uma Partida de Futebol. OLÁ, CRIATIVIDADE. Pior: Nando errou a letra. Depois de todas as vezes que essa música já tocou em eventos ligados ao futebol, isso é um insulto.

7 – Cadê a Glenda?

Sinto na internet também um clima de “odeio a Glenda” por ela ser uma pessoa, digamos, muito feliz. Sua escolha por apresentar reality shows também não foi muito bem vista. Na festa da CBF, a jornalista ficou de lado a maior parte do tempo, o que parece até bom, já que Huck e Leifert improvisam melhor. Mas Glenda deixou sua contribuição com o EPIC FAIL quando chamou Marco PAULO Del Nero para o palco. Sim, é Marco Polo. Até quem não manja de futebol sabe, porque né, tem nos livros de História.

8 – Huck trollando (?) o Ricardo Teixeira

“O senhor como apresentador é um ótimo dirigente”

Até agora estou pensando se é um elogio ou uma trollada. Só sei que morri de rir.

9 – Galvão trollando tudo

Dedé ganhou o prêmio principal depois do Neymar e não apareceu para receber, sendo que já havia subido ao palco antes. Leifert então diz: “ele está dando entrevista para o Galvão”. WIN do tiozão.

10 – Zorra Total

Deixei para o final, porque foi de longe o pior momento. Sei que esse quadro do metrô existe e faz relativo sucesso. Espero sinceramente que seja melhor no Zorra Total do que foi ontem na premiação. Totalmente fora de contexto, o segmento causou tanta “vergonha alheia” que o câmera demorou a descobrir alguém animado o suficiente para fingir uma risada. No caso, Ronaldinho Gaúcho. O que não diz nada, já que ele está obrigatoriamente sempre sorrindo.

Um bom exemplo

19 nov

Nós temos falado aqui há algumas semanas que é possível sim juntar jornalismo ao entretenimento sem desvalorizar a notícia, sem mentir ou tratar de forma pobre a informação. Falamos sobre o “Rockgol” como um bom exemplo de experiência nesse sentido, mas a atração não era essencialmente jornalística. Portanto, qual seria um bom exemplo dessa tendência na imprensa? Gostaria de indicar algo brasileiro, mas tudo que me vem à mente é o trabalho da americana Courtney Nguyen com o tênis.

Conheci Nguyen, ou melhor, a “Forty Deuce” através do Twitter, quando eu procurava (e surpreendentemente achava) pessoas tão viciadas no microblog e no tênis quanto eu. Lá e no seu blog, ela fala sobre o esporte com uma perspectiva muito singular. Sendo mais clara, engraçada. Principalmente quando escrevia sobre detalhes curiosos dos jogos (como esse post hilário sobre o match-point do Andy Roddick).

Nguyen, que tem mais de 6.600 seguidores em suas duas contas no Twitter, começou a viajar para os torneios de tênis no mundo todo, conseguiu credenciais e começou a fazer um trabalho de cobertura muito mais completo do que se encontrava nos sites de notícia tradicionais. Por isso, foi contratada pela Sports Illustrated para comandar o blog de tênis do portal. Se há alguém que me inspirou no meu blog e me provou que não precisava ser caretinha para escrever sobre esporte, foi ela.

Entrevistei por email (por isso as perguntas estilo questionário) a “C Note” para que ela explicasse melhor a receita do seu sucesso e desse sua opinião sobre o “confronto” entre a mídia tradicional e as redes sociais.

Quando você começou a seguir tênis e por quê? Você sente que as pessoas têm uma visão errada do tênis, como se ele fosse entediante, quando na verdade é divertido?

Eu sempre segui tênis. Meu tio, que costumava cuidar de mim, era um grande fã na época de Ivan Lendl, Boris Becker e Stefan Edberg, então eu tenho algumas memórias desses caras. Mas eu voltei para o jogo mesmo por volta de 2006 e tem sido meu esporte favorito desde então. Eu costumava citar estatística de beisebol de cor. Agora eu consigo dizer a qualquer momento em qual cidade cada tenista está. É uma grande mudança.

Eu acho sim que o tênis sofre com um problema de imagem. As pessoas acham que só há brancos jogando, tomando champanhe, com pessoas de “country club” elegantes vendo silenciosamente duas pessoas batendo numa bola. Confesso que também achava isso quando era mais jovem. Mas as coisas mudaram totalmente agora. O que digo para meus amigos é “me dê uma hora. Assista por uma hora e eu prometo que você vai gostar mais do que gosta agora”. Nunca falha, O jogo é emocionante, é rápido e o fato de ser uma batalha um contra um o diferencia da maioria dos esportes.

Como você define o seu estilo de escrita?

Não sei se escritores gostam de responder essa pergunta. Requer um certo nível de auto-conhecimento que a maioria de nós tenta manter para não ficarmos no mesmo lugar. Não sei qual é meu estilo, mas acho que posso dizer qual espero que seja. Eu tenho mais orgulho do meu trabalho quando sinto que há um ritmo em como eu construo as frases e parágrafos, para que eles sejam não só fáceis de ler, mas também divertidos. Para isso, não tenho problema em deixar de lado a gramática ou regras para que soe do jeito que eu quero. Quando escrevo sobre tênis, quero que as pessoas se divirtam, porque elas conseguem sentir a paixão e o gosto que eu tenho escrevendo sobre o esporte. Claro, elas também dão uma ou duas risadas. É muito difícil escrever mais que três frases e não injetar algum humor em algum lugar, mesmo se for apenas para mim.

Beyond the Baseline: o novo blog no Sports Illustrated

Você concorda que essa abordagem diferente do esporte se encaixa bem na era das mídias sociais, quando o esporte é seguido por um público mais jovem?

Absolutamente. Blogar é uma grande ferramenta, não só para jovens criarem uma plataforma e praticarem sua habilidade de escrita, mas também é um jeito de vários pessoas encontrarem informações e comentários nos dias de hoje. O advento do Twitter trouxe certamente mais cinismo e desconfiança dos jovens em relação à imprensa de tênis tradicional. Certas opiniões injustas e incoerentes de jornalistas ficaram mais evidentes no Twitter, o que pode levar a uma perda de autoridade. Blogueiros e tuiteiros ajudam a preencher esse vácuo. Há certos blogueiros que eu sigo porque eles são bons em monitorar histórias pequenas do que as grandes. Há outros que eu sigo porque adoro suas opiniões e sei que eles são justos e objetivos. E há os que eu sigo que são muito injustos, mas eles me divertem de uma certa maneira. Ter a possibilidade de escolher e criar minha própria “imprensa” aumenta minhas chances de aprender e curtir o jogo. Quando se trata de comentários, opiniões ou análises, tenho que dizer que confio mais em vários blogueiros e tuiteiros do que muitos na mídia tradicional.

Blogueiros nunca vão substituir jornalistas, nem deveriam. Se há algo que eu diria para os jovens blogueiros ou tuiteiros, é que eles devem ser justos quando se trata de jornalistas. Eles que têm os contatos e as fontes que dão a eles a possibilidade de descobrir fatos e reportar notícias. Não posso pegar meu celular e ligar para o empresário da Maria Sharapova para confirmar algo. Eles podem. Tudo se perde sem os jornalistas e ainda bem que o tênis têm ótimos.

Você já sentiu preconceito quando conheceu jornalistas “tradicionais” por ser blogueira? Como é seu relacionamento com eles?

Minha experiência sempre foi bastante positiva quando lidei com outros repórteres, oficiais dos torneios e pessoas de comunicação do circuito. Não concordamos o tempo todo e às vezes eu ‘tenho uma preguiça’ do que eles escrevem ou dizem, mas não significa que eles sejam más pessoas ou não fazem bem seu trabalho. O esporte é cheio de gente de muita qualidade e se não fosse o caso, não ia querer fazer parte disso.

Dito isso, claro que eu tive alguns problemas no caminho, quando senti que fui subestimada ou desrespeitada simplesmente porque sou blogueira. Eu tenho cara de jovem, sou a nova garota do pedaço. Quando você começa, pode ser um choque, especialmente porque você percebe como a sala de imprensa é cheia de cliques e você não conhece ninguém. Mas isso muda com o tempo e eu tive muita sorte de conhecer pessoas que me apoiaram. Assim que isso aconteceu, a sala de imprensa não parecia mais tão solitária.

C Note clicou a mochila Hello Kitty da Serena Williams

Você deixou seu emprego anterior para ser uma escritora de tênis. O que motivou essa decisão?

Eu fui advogada por sete anos e chegou um ponto que eu percebi que aquele não era o tipo de escrita de que eu gostava. Eu passava 12 horas por dia escrevendo cartas, emails e pautas, mas os 15 minutos que eu tirava para escrever um post no Forty Deuce eram o momento mais feliz do meu dia. Queria uma plataforma criativa e mais tempo para escrever. Assim que eu percebi que eu preferia ser uma escritora do que ter o prestígio e o dinheiro que a advocacia me dava, a decisão foi instantânea e muito fácil.

Como o Twitter ajudou seu blog, além de trazer uma nova audiência? Você se sente melhor informada com as mídias sociais?

Sou uma grande fã do Twitter, como muitos sabem. Se eu não checo o Twitter a cada 30 minutos pelo menos, me sinto totalmente fora de órbita. É horrível e grosso quando estou com família e amigos. Como blogueira independente, o Twitter me ajudou demais porque há mais pessoas no Twitter do que leitores de blogs. Assim que eu aumentei meus seguidores, pessoas dos torneios e circuitos começaram a notar. Eles não sabiam do Forty Deuce ou quem eu era, mas conheciam o “fortydeucetwits” e sabiam que eu tinha mais seguidores que muitos jornalistas. Então, quando eu pedia credenciais, as pessoas que tomavam essas decisões pelo menos sabiam quem eu era, o que já era metade da briga. Isso ajudou muito em me dar um empurrão inicial. Da mesma forma, isso me ajudou com empregos freelancer como jornalista, porque eu era conhecida no Twitter. Na verdade, acho que minha presença lá fez com que as pessoas pensassem que eu era mais importante do que eu realmente era.

Que coisas você teve que mudar no seu blog desde que se mudou para a SI? Linguagem, conteúdo, responsabilidades, essas coisas.

Bom, eu não escrevi nada para o Forty Deuce desde que me mudei para o SI, o que é mais resultado de falta de tempo. Eu estou o tempo todo com o SI, então passo meus dias monitorando notícias, lendo o Twitter, escrevendo e, claro, vendo tênis. Em média, eu passo provavelmente 14 horas por dia fazendo algo relacionado a tênis. Isso soa insano, mas é bem normal para mim. É quanto eu trabalhava quando era advogada e não é tão diferente do que eu fazia quando ficava apenas no Forty Deuce.

Mas eu pretendo escrever para o Forty Deuce enquanto trabalho para o SI, então acho que as mudanças são basicamente linguagem e tom. Posso ser mais livre no Forty Deuce do que no SI, mas não tanto como eu era. Vou precisar de um tempo para acertar isso, mas espero voltar a blogar no Forty Deuce durante as férias do tênis. Deus sabe que tenho muitas histórias desse meu ano de viagens que eu adoraria compartilhar.

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Os jornalistas hoje se dividem entre os que abraçam as mídias sociais como complemento de seu trabalho ou rejeitam as mesmas pelo seu apelo muito popular. O fato é que o repórter que está atento à internet tem muito mais noção da repercussão dos fatos, do que interessa aos seus leitores/espectadores e tem uma resposta bem imediata em relação ao que faz. Essa proximidade com o público costuma trazer um pouco de informalidade para a maneira com que os jornalistas escrevem e isso não é necessariamente negativo.

Pessoalmente, vejo o trabalho da C Note como um grande tapa na cara de todos que acham que o esporte só deve ser relatados somente com base em estatísticas, sem espaço para descontração. Admiro o time dos jornalistas bem-humorados. Eles geralmente não são arrogantes de achar que suas opiniões são a verdade, possuem auto-crítica e conseguem fazer ótimas relações entre o esporte e outras áreas da sociedade. Com bom gosto e respeito pela informação.

O humor e o jornalismo, por Marco Bianchi

4 nov

É impossível falar sobre entretenimento sem falar de humor. De forma estratégica, natural ou polêmica, fazer rir tornou-se quase uma obrigação entre os veículos de comunicação. Musa do jornalismo esportivo, a piada já se infiltra até em jornais “elegantes”, como o Jornal Hoje. Quando bem utilizado, o humor é capaz de fazer uma abordagem não só mais agradável de determinado tema, mas também de realizar críticas mais profundas e de maior impacto entre os espectadores.

Contudo, não falta exemplos de programas mal feitos, humoristas e jornalistas perdidos e tiradas sem graça. Mas não desistimos de provar que é possível fazer um jornalismo critavo, inovador e, também, bem humorado. Assim, saímos em busca de alguém que nos explicasse como é esse humor que funciona. Comece ler nossa matéria aqui:

“Ficou esse rótulo na minha cabeça”. Um humorista que trabalhou desde o início com vários tipos de assuntos, mas ficou conhecido nacionalmente através de um programa de esportes. Marco Bianchi, 39, está tentando voltar às origens após sair da MTV, onde apresentou o ‘Rockgol’ ao lado de Paulo Bonfá por oito anos (contando o campeonato, 15).

Em conversa com as (prestes a serem ex-ecanas, como ele) autoras deste blog, Bianchi tem dois projetos em andamento: um sobre esporte, mas com uma abordagem diferente do ‘Rockgol’, e uma sátira a formatos de televisão chamada “Descontrole Remoto”.

Se os grandes astros da atual MTV são comediantes como Dani Calabresa, isso tem muito a ver com o ‘Rockgol’. O programa fez parte de uma renovação do canal no fim dos anos 90, buscando formatos diferentes do clássico VJ + videoclipe + matérias da MTV americana. O canal foi deixando de ser exclusivamente musical para abraçar todo o entretenimento, incluindo o futebol. Quando lançou o campeonato entre músicos em 1996, a MTV buscou um grupo de radialistas para fazer uma narração nada convencional.

O grupo era formado por Bianchi, Felipe Xavier e Paulo Bonfá, que se conheceram ainda crianças. O nosso entrevistado fez Rádio e TV na USP e se reuniu no começo dos anos 90 com os amigos na 89 FM para fazer o “Sobrinhos do Ataíde” (lembra do Xiiii Marquinho?). Um dos quadros da atração era o “Mesa Quadrada Futebol Moleque”, uma sátira do “Mesa Redonda Futebol Debate”, que era apresentado por Roberto Avallone na TV Gazeta.

“Esse quadro fazia sucesso, ele falava “primeiro bloco, Palmeiras”, “segundo bloco, mais Palmeiras”, “terceiro bloco, só Palmeiras”, quarto bloco “Corintia, São Paulo, seleção brasileira, meninos do vôlei, gêmeos do Pelé, caso Edmundo e mais uma pitadinha de Palmeiras”, lembra Bianchi.

Trabalhando na TV, os três humoristas tiveram que aprender uma nova linguagem, mas já tinham seus papéis definidos. “Eu e o Paulo nunca tínhamos feito narração de jogo de futebol, muito menos o Felipe Xavier. Mesmo com inexperiência, deu certo, por causa da facilidade que a gente tinha com futebol e pelos personagens. O Paulo representa mais a própria personalidade, ele não encarna personagem. Ele é ele mesmo com mais besteirol. Agora eu já inventava voz, falava que eu era formado na Foderj em jornalismo esportivo e começava a inventar coisas”.

Após uma breve passagem pela Band, eles retornaram à MTV para fazer uma mesa redonda semanal. Inspirado nos antigos programas esportivos, o ‘Rockgol’ e sua veia bem-humorada acabaram lançando uma nova maneira de falar sobre esporte, mais ligada aos jovens, ao comportamento e ao entretenimento. Oito anos depois, com todos os diários esportivos tentando ser ‘engraçadinhos’, vale a pena resgatar a história de Bianchi e do programa.

A entrevista está dividida em duas partes que nos ajuda a aprofundar a questão do humor em nossos posts. Na seção “Revolução”, você saberá como Bianchi vê o humor e sua opinião sobre polêmicas atuais, como o caso Rafinha Bastos. Em “Na Esportiva”, a sua receita para falar do esporte de forma engraçada, crítica, uma agressão que sofreu por uma piada e a razão pela qual o formato do ‘Rockgol’ se esgotou. Boa leitura:

Humor politicamente equilibrado: sobre os limites dos comediantes

Maravilha, Alberto: o ‘Rockgol’ e o jornalismo ‘engraçadinho’

Maravilha, Alberto!

4 nov

por Sheila Vieira

O primeiro programa de futebol a que eu assisti fielmente foi o “Rockgol”. Eu sempre gostei de esporte, mas não me identificava com os jornalistas esportivos “comuns”. Eles pareciam falar com o mesmo público: homens adultos entre 20 e 60 anos que um dia sonharam em ser o Ronaldo, o Rivaldo, o Messi… Eu não. Nunca quis jogar nada, nem nas aulas de Educação Física. Eu gostava de ver, de falar sobre esporte de uma forma que mostrasse o quanto ele é hilariamente dramático e divertido.

Curiosamente, quando fomos entrevistar o Marco Bianchi (vocês sabem, um dos apresentadores do programa) para este blog, ele nos falou sobre como esse tipo de informação com humor havia se espalhado nas emissoras a ponto de deixar o “Rockgol” muito igual ao resto. 

‘Virou quase uma regra, não uma exceção’

“Não sei se lançamos essa tendência, porque eu não conheço a história da TV desde o começo, mas no momento em que isso estava meio abandonado, esse casamento de entretenimento com futebol, nós resgatamos isso. Tanto que, de um tempo pra cá, todos os programas começaram a ser, digamos, menos quadrados. Surgiram programas de rádio nessa linha humorística, programas de TV que sempre foram convencionais passaram a mudar, o ‘Globo Esporte’ tinha um formato X, passou a ter um formato diferente, isso influenciou muita gente. Virou quase uma regra, não uma exceção”.

‘Hoje, todos os programas são engraçadinhos’

“O jornalismo esportivo tem as suas características próprias, porque o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes, como dizem. Ele permite que você trate o assunto de uma forma mais descontraída. Quero continuar a trabalhar com futebol, mas hoje em dia, para fazer algo que se destaque, não basta ser como era o ‘Rockgol’, porque a distância entre o que era o ‘Rockgol’ e os outros programas diminuiu. Hoje, todos os programas são engraçadinhos. Para ser inovador, teria que ser mais humorístico, feito por humoristas. Não um programa de esportes com humor, mas o inverso”.



Bianchi fez Rádio a TV na USP no começo dos anos 90. Eu estudo (estudei? Estudava? Será difícil conjugar esse verbo no passado) bem pertinho dali, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Quando eu entrei na USP, sentia um certo medo de ser olhada com desprezo por ter o esporte como uma das coisas mais importantes da minha vida. Sei que política é relevante (como economia, cultura, cidadania) e tento como posso estar bem informada sobre tudo isso. Mas há gente por aí mais apaixonada por isso e capacitada para tratar desses assuntos.

Nos meninos da minha sala, eu encontrei um porto seguro para me convencer de que o jornalismo esportivo era um caminho válido e que eu poderia exercitar isso nos trabalhos da faculdade. Por isso, eu perguntei para o Bianchi como ele expressava sua paixão pelo futebol nos limites da ECA.

‘Nunca fomos especialistas’

“Sempre fomos muito ligados ao futebol. Sempre vimos o futebol não como uma fonte de estudo, nunca fomos especialistas, mas sempre interessados. Quando eu comecei a fazer o programa na Rádio USP [começo dos anos 90, Bianchi estudava na Universidade], um dos meus primeiros quadros foi o ‘Mesa Quadrada Futebol Moleque’, era uma sátira de um programa da TV Gazeta chamado ‘Mesa Redonda Futebol Debate’. Antes era apresentado pelo Roberto Avallone, que é um cara super folclórico”.



Referências: Avallone e Gérson

“A principal delas é o [Roberto] Avallone. Há uma série de coisas que ele fala, a cantina chique dos Jardins, as camisas que às vezes ele usava, umas coisas linguísticas dele. Ele fala muito bem o português. ‘Agora os comerciais, mas não vá sequer ao banheiro; ‘estou muito empolgado, exclamação’, ‘Palmeiras, 1,2,3,4, Corinthians zero’. E o melhor é que ele aparentemente se leva a sério, o que o deixa mais engraçado ainda. Ele se envolve de uma forma até doentia com o futebol. O Gérson, o canhotinha, ele falava ‘perfeito’, a voz que eu faço é inspirada nele. Os principais são o Avallone, pelo espírito de envolvimento, e o Gérson pela voz”.



Eu via o “Rockgol” ao vivo e também as reprises. Não imaginava fazer um dia o mesmo que eles (afinal, não sou uma pessoa naturalmente engraçada, pelo menos, não pessoalmente), mas pensava em falar para jovens e dos dois gêneros. O esporte hoje não está apenas em conversas de botecos. Ele está em todos os lugares. Para trazer o jovem e as mulheres para o jornalismo esportivo, não basta colocar uma gostosa como apresentadora. A chave é ligar o esporte a referências culturais e sociais com as quais as pessoas se identificam. Isso exige que os apresentadores estejam totalmente ligados não só em esporte, mas também em comportamento.

‘A descontração agregou mais os jovens’

“A MTV tem publico muito adolescente. A pessoa que tem 25 anos lembra da gente na rádio, mas quem tem 15 só conhece pelo ‘Rockgol’, acha que eu sou jornalista esportivo. Tem que ficar atento aos interesses do público, as músicas, o comportamento. Nas emissoras em geral, os programas de futebol têm um publico muito amplo, porque essa coisa da descontração agregou mais os jovens. O publico de futebol vai de A a Z. Frentistas me conhecem, o garçom fala comigo, gente de 15, 18 anos. Mas eu sou meio avesso a fazer as coisas pensando no público, pensei em fazer coisas naturais para mim, depois pensar onde se encaixa. Há amigos dos meus pais que gostam do meu trabalho, moleques de 15 anos. O futebol prende todos os públicos”.

‘Quatro ou cinco corintianos me agrediram’

“Uma vez eu fiz uma piada do Corinthians no ‘Rockgol’, era um corintiano que ligava ao vivo para o programa, ele falava algumas coisas, a gente tirava sarro. Eu fiz o texto e a voz. Fui numa festa, um cara veio tirar satisfação, parecia de torcida organizada. Eu não estava acostumado com aquilo, fui surpreendido, tentei argumentar, daí quatro ou cinco corintianos me agrediram. Eu tinha operado o joelho, torci de novo, tive que operar de novo. Enfim, me bateram, eu fui fazer BO na delegacia, o cara perguntou quem eram, eu não sabia, falaram que não adiantava, fiz o BO mesmo assim, mas passei por isso”.



‘Era um humor para todos os clubes’

“Eu poderia ter me intimidado, mas só fiquei um pouco mais atento para não dizer coisas que poderiam ser encaradas como ofensa. Ao mesmo tempo, eu fiquei mordido e fiz mais piadas com o Corinthians do que o normal, por uma certa mágoa com esse episódio. Mas foi passageiro, eu sempre mostrei no programa que a brincadeira era com os clubes que estavam mal. Quando Palmeiras estava mal, mas eu brincava mesmo assim, e eu sou palmeirense. Era um programa de humor que o assunto era futebol, os assuntos seriam explorados, não importa o time. Depois as pessoas começaram a entender o espírito do programa, que não perseguia time nenhum. Era um humor para todos os clubes. Pessoas de todos os times gostavam do mesmo jeito do programa”.

‘A fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo’

“Criávamos quadros, mudávamos os cenários, a disposição das pessoas no cenário, a duração, a abordagem dos comentários, sem mudar a essência, mas coisas que representassem renovação. Fazer um programa durante oito anos, ainda mais um humorístico, foi um feito. Mas a fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo [Bonfá]. Era um casamento de estilos, para determinar algo, todo mundo tinha que gostar, era uma configuração que conciliava os interesses. O leque de possibilidades se esgotou. Agora eu pretendo fazer um programa diferente, comigo comandando a mesa, mais quadros de humor, indo mais adiante do que foi o ‘Rockgol’, para se diferenciar do resto. Todos os programas ficaram descontraídos, uns são engraçados, outros tentam ser engraçados. Hoje em dia, aquele jornalismo convencional, quadrado, antiquado, não é mais o mesmo”.



Eu fui ao “Rockgol” uma vez (na plateia, claro), no começo do ano passado. Foi legal, mas eu também senti que o espírito do programa tinha ido embora. Os entrevistados já sabiam mais ou menos o tom das perguntas e como desviar delas. Não havia mais surpresas, como o amendoim entrando no olho do Bianchi enquanto o Bonfá falava ou um “passar bem” que cortava um entrevistado no telefone. Eu senti que o formato com os dois estava acabando aos poucos.

‘Naquela configuração, não dava mais’

“Ele [Bonfá] tem um perfil de comunicador mais convencional, talvez mais versátil. Porque ele já trabalhou no programa da Adriane Galisteu, no TV Fama, agora está no Sportv. Eu sempre fiz humor, eu nunca fiz outra coisa. Sempre procurei enfatizar isso. O Bonfá não. Na rádio, eu fazia parte de criação. O Paulo também fazia vozes, mas ele ficava mais com a parte de administração do escritório, ele e o Felipe Xavier, de venda de patrocínios. No ‘Rockgol’ também. Eu meio que mordia e o Paulo assoprava. Ele sempre amenizava e eu lascando os convidados. Mas era um casamento bom, porque ele amenizava quando ficava um clima meio constrangedor. Ele tinha uma função mais burocrática, mais jornalística, perguntas mais comuns e eu sacaneava mais. Durante muitos anos, ele fez os contratos com a MTV, inclusive no meu nome. A gente tinha estilos diferentes, mas que combinavam. E pelo fato de se conhecer desde moleque, às vezes, ao vivo, eu sabia só de olhar para ele que ele tinha gostado de alguma coisa. A gente tinha um entrosamento muito bom, mas foi uma fórmula que se esgotou. Não fecho a porta para fazermos coisas juntos no futuro, mas, naquela configuração, não dava mais. Por isso, eu decidi que, se eu fizer coisas com futebol, vou fazer com meu projeto, para o meu perfil”.

Tento imaginar o tamanho do desafio que deve ser se desvincular da imagem de outra pessoa. É difícil pensar em praticamente reiniciar uma carreira, sendo que eu estou apenas no meu primeiro emprego, no qual a minha maior responsabilidade é o meu blog (que curiosamente tenta ser ‘engraçadinho’). O Bianchi podia com certeza se acomodar e fazer humor só com esportes para sempre, mas não.

“Minha carreira começou com humor multitemático, mas espero que eu consiga espaço de novo para fazer isso, paralelamente com algo com futebol. A internet é mais uma opção. As emissoras de TV abertas são poucas e limitadas, a internet está quase junto do cabo com faturamento e publicidade. Saí da MTV no ano passado, estou trabalhando mas sem ganhar, então tenho até o final do ano para fechar alguma coisa”, ele disse para nós duas. Ele produz o programa “Descontrole Remoto” e tem um projeto de uma atração de esporte, mas com ênfase total no humor, sem o compromisso de relatar informação o tempo todo.

Apesar de uma história tão rica na TV, ele falou de seus novos planos com a alegria de alguém que acabou de sair da ECA. Daqui a pouco, será a minha vez de dar adeus à USP. Sem a pretensão de ter uma carreira tão bem-sucedida quanto a dele, mas com a intenção de mostrar para as pessoas que o esporte é divertido… e de todos.

Manchete diferente, mesmo jornalismo

30 out

por Sheila Vieira

Estava eu passando por minhas leituras para o TCC, quando me deparei com este texto retirado de um Congresso de Ciências da Comunicação realizado em Novo Hamburgo em maio de 2010. É basicamente um comparativo entre o Lance!, maior jornal esportivo do país, e o caderno de Esportes da Folha de S. Paulo.

A parte engraçada: o texto tem um ano e meio e já está bastante atrasado.

Mas não é culpa dos seus autores. O caderno esportivo da Folha, que sempre foi conhecido por ser o que mais abre espaço para a parte política desse assunto, realizou uma mudança visual que a aproxima justamente do…. Lance! Ironias do jornalismo.

A análise feita pelos pesquisadores de Curitiba deu as seguintes características para o Lance!:

– Destaque total para o Campeonato Brasileiro

– Critérios principais de notícia: popularidade, repercussão e polêmica

– Linguagem específica do esporte, gírias e bordões

No mesmo texto, a Folha foi retratada assim:

– Textos formais

– Menos páginas

– Mais política, contexto e ploblematizaçào

– Mais destaque para futebol internacional e outros esportes

Boa análise. Mas faltou dizer uma coisa: O FORMATO!

O “Esporte” da Folha era na época em formato standard (aquele difícil de abrir), enquanto o Lance! é um tabloide (o fácil de abrir). Inspirado nos diários esportivos da Europa, o Lance! sempre apostou em manchetes e fotos gigantes, com exclamações, muitas cores, textos pequenos, divididos em inúmeras seções (muitas desnecessárias, mas que dão ritmo e facilitam a leitura), um visual meio poluído, que dá para “ler” apenas “passando o olho” dentro do ônibus.

Nada de errado nisso. É simplesmente a proposta do jornal. Deu tão certo que “aposentou” a Gazeta Esportiva e fez com que o antes “reduto da política esportiva” (o caderno da Folha) ficasse mais parecido com ele. Desde maio de 2010 (enquanto os autores daquele texto apresentavam seu artigo), o “Folha Esporte” também é um tabloide, com manchetes e fotos gigantes, muitas cores, textos pequenos (copie o resto do parágrafo anterior aqui).

Não, esse não é o jornal de hoje. Usei essa imagem para não precisar escanear. Vocês entendem, né?

Comprei os dois jornais neste domingo, dia 30 de outubro. Peguei primeiro a Folha. Na capa, uma foto gigante de Ralf e a manchete “pequenos no caminho” (sem letra maiúscula mesmo), sobre o jogo do Corinthians com o Avaí, pelo Brasileiro. A matéria abre o caderno, seguindo o visual diferente da capa. Ao lado, um texto sobre o Palmeiras e uma coluna (uma não, A coluna do Tostão).

Nas páginas seguintes, uma lembrança da velha Folha Esporte: título em fontes padrão sobre o Santos e o São Paulo. Em seguida, uma “matéria” sobre a reforma do Maracanã. Coloquei aspas porque, na verdade, é um uber infográfico com um pedacinho de texto ao lado para cumprir o protocolo. A Folha adora infográficos.

Aí sim! Páginas seguintes: uma entrevista com Luiz González de Alba, ex-dirigente estudantil mexicano que sobreviveu a um massacre numa universidade em 1968 (repórter no México cobrindo o Pan + gancho do barraco na USP = na mosca). O Pan 2011 tem as suas páginas, mais algumas com tabelas e resultados (muito mais espaço para isso do que havia no formato standard) e F1 na contra-capa.

Vamos ao Lance! agora (edição de São Paulo, ok?). Manchete: “Para o líder!” (primeira nas incontáveis exclamações em títulos). O jornal fez uma ligação entre o caso da descoberta do câncer de Lula e a homenagem que o Corinthians planejava fazer ao ex-presidente. Para não afastar são-paulinos, Lucas, do São Paulo, tem metade da capa para ele.

As tabelas e resultados aparecem no começo e no fim e a inspiração da Folha nelas fica ainda mais evidente. As editorias são os principais confrontos do Brasileiro, ou seja, Corinthians x Avaí, Vasco x São Paulo, etc. Os títulos são mais informais. “Vai ser 3 a 0 para nós” é a chamada para o texto do clube de Itaquera, uma frase do goleiro Renan (que, por sinal, errou sua previsão).

“Segura a bronca!”, a manchete do São Paulo, tem uma linha fina assim: “Quem se habilita? Sem três dos principais jogadores, chegou a hora de alguém chamar a responsabilidade. Retrospecto recente não é bom, mas é preciso mudar”. (Nota minha: “chamar a responsabilidade” é o meu clichê preferido do jornalismo esportivo).

Porém, o texto em si tem um tom bem diferente… e convencional. Não há questionamento direto de nenhum atleta, apenas fatos, um pequeno panorama da situação do clube no campeonato e algumas frases. Faz sentido, já que o repórter não é necessariamente o que redige os títulos e linhas finas, e porque a intenção é passar mais o clima esperado para o jogo do que dar informações pontuais que podem ser mostradas em fichas ao lado do texto.

Kitadai: um "incidente" e dois relatos iguais

Passando por manchetes como “Se cuida, Messi” (assunto: Neymar, claro), “Sem bruxaria” (Halloween + Mago Valdívia + Abóbora gigante na página), “O Maraca é nosso” (versão Lance! do uber infográfico da Folha), “Vettel = Fangio” (o alemão alcançou a marca de 28 poles do ex-piloto), “Heróis da resistência” (rúgbi), “Foi tudo muito ruim” (judoca brasileira sobre o Pan), chegamos ao fato polêmico do dia: Felipe Kitadai.

Na Folha: “Logo no início da luta contra Aaron Kunihiro (EUA), ontem, o brasileiro fez muita força para aplicar um golpe e defeca no quimono. O uniforme, branco, ficou manchado, denunciando o incidente”.

No Lance!: “Durante o combate, o brasileiro defecou no quimono. E a situação ficou ainda mais visível, porque o seu traje era branco”.

Sim, você leu praticamente a mesma coisa.

Enquanto a Folha busca uma aparência de tabloide, tentando dialogar melhor com o público que acompanha de perto o esporte, sem deixar de lado suas matérias “problematizadoras”, o Lance! faz jornalismo com essa roupa, mas seus pequenos textos, informações e conteúdo bruto seguem o mesmo padrão dos outros. Os opostos acabaram se aproximando e virando quase a mesma coisa. Ironias do jornalismo.

Liberou geral no jornalismo esportivo

12 out

por Sheila Vieira

Como você classificaria o jornalismo esportivo brasileiro atualmente? Muito brincalhão, sério, bom, péssimo? Essa é uma pergunta difícil de se responder em um momento em que toda a crônica esportiva parece estar, ao mesmo tempo, experimentando, acertando, errando e, principalmente, servindo como um espaço de testes para as outras áreas da imprensa. 

De editoria rejeitada e diminuída, o esporte virou o espaço mais “descolado” do jornalismo. Quem foi o primeiro a fazer piadas durante um VT na Rede Globo? O Tadeu Schmidt no “Fantástico” ou, se você quiser ir um pouco mais para trás, o Régis Rosing na reportagem. Hoje, o “show da vida” é totalmente influenciado pelas brincadeiras e informalidades que o irmão de Oscar trouxe. E, certamente, Tiago Leifert não teria o OK da emissora para o seu formato de “Globo Esporte” se a ‘experiência Tadeu’ não tivesse dado certo. 

O ponto é que o esporte, talvez por causa do preconceito sofrido por tanto tempo dentro das redações, usou como resposta uma maior liberdade de linguagem. Não havia medo de exagerar ou de deixar um pouco da paixão de torcedor ou do ufanismo fazer parte do jornalismo, porque não se tratava de uma área “séria”. 

Bem, isso mudou bastante. As primeiras marcas da crônica esportiva foram os textos dramáticos de Nelson Rodrigues e Mário Filho, as narrações emocionantes do rádio e a exaltação dos atletas e times nacionais. No entanto, uma das figuras mais importantes do jornalismo esportivo atual representa o oposto de tudo isso. 

Estou falando de Paulo Vinícius Coelho, o PVC da ESPN Brasil. Conhecido como “o homem dos números e de uma memória incrível”, esse jornalista inspirou um grande número de telespectadores (incluindo a autora deste texto) ao desejo de trabalhar com esportes. Mais do que isso, de vê-lo sendo tratado como algo sério, quase científico, relevante e que fosse um ótimo objeto de reflexão. Ele levou o jornalismo esportivo a um novo patamar de excelência. 

Curiosamente, PVC fala em um dos seus livros (‘Jornalismo Esportivo’, Editora Contexto, 2003) que estava faltando uma certa ousadia dos seus colegas para falar de esporte: 

“Análise tática sobre jogo de futebol vai sempre valer relatos dignos de fazer o torcedor mais fanático se arrepiar tanto quanto a descrição perfeita da partida de futebol. A conquista do título, a jogada brilhante, a história comovente sempre fizeram parte do esporte. E sempre mereceram o tom épico que desapareceu das páginas dos jornais e revistas e dos relatos de emissoras de rádio e de televisão”.

Ele disse isso logo após falar sobre Mário Filho e Rodrigues e defender a presença de um tom literário no jornalismo esportivo que ele via desaparecendo. Mal sabia PVC que os próximos anos seriam cheios de criatividade, exagerada ou não, mais para o lado do humor do que da Literatura. 

Nomes como Paulo Bonfá, Marco Bianchi, Tadeu Schmidt, Tiago Leifert e Milton Neves trouxeram (de maneiras bem distintas) muita irreverência para o jornalismo esportivo. Os dois humoristas ex-MTV, por exemplo, criaram no “Rockgol” uma sátira para homenagear e criticar o que se via na TV, nos jornais e no rádio. 

A internet, com seu ambiente mais democrático e efêmero, embarcou nessa tendência e fez com que ela se expandisse ainda mais. Os grandes portais de notícias contam com 24 horas de ‘circulação’, ao invés de 30 minutos espremidos numa grade de programação. Portanto, podem ter um espaço para notícias mais sérias e fazer um blog só com curiosidades. O UOL, por exemplo, tem vários deles, como o “UOL Esporte Vê TV”, em que o assunto não é o esporte em si, mas como é feita a cobertura sobre ele. Os personagens não são os atletas, mas os jornalistas. 

As diferenças entre todas essas investidas, o sucesso de cada uma delas e a recepção do público ficam para os próximos posts. Por enquanto, quero saber como vocês avaliam o jornalismo esportivo atual. Para isso, usem a enquete, os comentários e soltem o verbo!