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Um bom exemplo

19 nov

Nós temos falado aqui há algumas semanas que é possível sim juntar jornalismo ao entretenimento sem desvalorizar a notícia, sem mentir ou tratar de forma pobre a informação. Falamos sobre o “Rockgol” como um bom exemplo de experiência nesse sentido, mas a atração não era essencialmente jornalística. Portanto, qual seria um bom exemplo dessa tendência na imprensa? Gostaria de indicar algo brasileiro, mas tudo que me vem à mente é o trabalho da americana Courtney Nguyen com o tênis.

Conheci Nguyen, ou melhor, a “Forty Deuce” através do Twitter, quando eu procurava (e surpreendentemente achava) pessoas tão viciadas no microblog e no tênis quanto eu. Lá e no seu blog, ela fala sobre o esporte com uma perspectiva muito singular. Sendo mais clara, engraçada. Principalmente quando escrevia sobre detalhes curiosos dos jogos (como esse post hilário sobre o match-point do Andy Roddick).

Nguyen, que tem mais de 6.600 seguidores em suas duas contas no Twitter, começou a viajar para os torneios de tênis no mundo todo, conseguiu credenciais e começou a fazer um trabalho de cobertura muito mais completo do que se encontrava nos sites de notícia tradicionais. Por isso, foi contratada pela Sports Illustrated para comandar o blog de tênis do portal. Se há alguém que me inspirou no meu blog e me provou que não precisava ser caretinha para escrever sobre esporte, foi ela.

Entrevistei por email (por isso as perguntas estilo questionário) a “C Note” para que ela explicasse melhor a receita do seu sucesso e desse sua opinião sobre o “confronto” entre a mídia tradicional e as redes sociais.

Quando você começou a seguir tênis e por quê? Você sente que as pessoas têm uma visão errada do tênis, como se ele fosse entediante, quando na verdade é divertido?

Eu sempre segui tênis. Meu tio, que costumava cuidar de mim, era um grande fã na época de Ivan Lendl, Boris Becker e Stefan Edberg, então eu tenho algumas memórias desses caras. Mas eu voltei para o jogo mesmo por volta de 2006 e tem sido meu esporte favorito desde então. Eu costumava citar estatística de beisebol de cor. Agora eu consigo dizer a qualquer momento em qual cidade cada tenista está. É uma grande mudança.

Eu acho sim que o tênis sofre com um problema de imagem. As pessoas acham que só há brancos jogando, tomando champanhe, com pessoas de “country club” elegantes vendo silenciosamente duas pessoas batendo numa bola. Confesso que também achava isso quando era mais jovem. Mas as coisas mudaram totalmente agora. O que digo para meus amigos é “me dê uma hora. Assista por uma hora e eu prometo que você vai gostar mais do que gosta agora”. Nunca falha, O jogo é emocionante, é rápido e o fato de ser uma batalha um contra um o diferencia da maioria dos esportes.

Como você define o seu estilo de escrita?

Não sei se escritores gostam de responder essa pergunta. Requer um certo nível de auto-conhecimento que a maioria de nós tenta manter para não ficarmos no mesmo lugar. Não sei qual é meu estilo, mas acho que posso dizer qual espero que seja. Eu tenho mais orgulho do meu trabalho quando sinto que há um ritmo em como eu construo as frases e parágrafos, para que eles sejam não só fáceis de ler, mas também divertidos. Para isso, não tenho problema em deixar de lado a gramática ou regras para que soe do jeito que eu quero. Quando escrevo sobre tênis, quero que as pessoas se divirtam, porque elas conseguem sentir a paixão e o gosto que eu tenho escrevendo sobre o esporte. Claro, elas também dão uma ou duas risadas. É muito difícil escrever mais que três frases e não injetar algum humor em algum lugar, mesmo se for apenas para mim.

Beyond the Baseline: o novo blog no Sports Illustrated

Você concorda que essa abordagem diferente do esporte se encaixa bem na era das mídias sociais, quando o esporte é seguido por um público mais jovem?

Absolutamente. Blogar é uma grande ferramenta, não só para jovens criarem uma plataforma e praticarem sua habilidade de escrita, mas também é um jeito de vários pessoas encontrarem informações e comentários nos dias de hoje. O advento do Twitter trouxe certamente mais cinismo e desconfiança dos jovens em relação à imprensa de tênis tradicional. Certas opiniões injustas e incoerentes de jornalistas ficaram mais evidentes no Twitter, o que pode levar a uma perda de autoridade. Blogueiros e tuiteiros ajudam a preencher esse vácuo. Há certos blogueiros que eu sigo porque eles são bons em monitorar histórias pequenas do que as grandes. Há outros que eu sigo porque adoro suas opiniões e sei que eles são justos e objetivos. E há os que eu sigo que são muito injustos, mas eles me divertem de uma certa maneira. Ter a possibilidade de escolher e criar minha própria “imprensa” aumenta minhas chances de aprender e curtir o jogo. Quando se trata de comentários, opiniões ou análises, tenho que dizer que confio mais em vários blogueiros e tuiteiros do que muitos na mídia tradicional.

Blogueiros nunca vão substituir jornalistas, nem deveriam. Se há algo que eu diria para os jovens blogueiros ou tuiteiros, é que eles devem ser justos quando se trata de jornalistas. Eles que têm os contatos e as fontes que dão a eles a possibilidade de descobrir fatos e reportar notícias. Não posso pegar meu celular e ligar para o empresário da Maria Sharapova para confirmar algo. Eles podem. Tudo se perde sem os jornalistas e ainda bem que o tênis têm ótimos.

Você já sentiu preconceito quando conheceu jornalistas “tradicionais” por ser blogueira? Como é seu relacionamento com eles?

Minha experiência sempre foi bastante positiva quando lidei com outros repórteres, oficiais dos torneios e pessoas de comunicação do circuito. Não concordamos o tempo todo e às vezes eu ‘tenho uma preguiça’ do que eles escrevem ou dizem, mas não significa que eles sejam más pessoas ou não fazem bem seu trabalho. O esporte é cheio de gente de muita qualidade e se não fosse o caso, não ia querer fazer parte disso.

Dito isso, claro que eu tive alguns problemas no caminho, quando senti que fui subestimada ou desrespeitada simplesmente porque sou blogueira. Eu tenho cara de jovem, sou a nova garota do pedaço. Quando você começa, pode ser um choque, especialmente porque você percebe como a sala de imprensa é cheia de cliques e você não conhece ninguém. Mas isso muda com o tempo e eu tive muita sorte de conhecer pessoas que me apoiaram. Assim que isso aconteceu, a sala de imprensa não parecia mais tão solitária.

C Note clicou a mochila Hello Kitty da Serena Williams

Você deixou seu emprego anterior para ser uma escritora de tênis. O que motivou essa decisão?

Eu fui advogada por sete anos e chegou um ponto que eu percebi que aquele não era o tipo de escrita de que eu gostava. Eu passava 12 horas por dia escrevendo cartas, emails e pautas, mas os 15 minutos que eu tirava para escrever um post no Forty Deuce eram o momento mais feliz do meu dia. Queria uma plataforma criativa e mais tempo para escrever. Assim que eu percebi que eu preferia ser uma escritora do que ter o prestígio e o dinheiro que a advocacia me dava, a decisão foi instantânea e muito fácil.

Como o Twitter ajudou seu blog, além de trazer uma nova audiência? Você se sente melhor informada com as mídias sociais?

Sou uma grande fã do Twitter, como muitos sabem. Se eu não checo o Twitter a cada 30 minutos pelo menos, me sinto totalmente fora de órbita. É horrível e grosso quando estou com família e amigos. Como blogueira independente, o Twitter me ajudou demais porque há mais pessoas no Twitter do que leitores de blogs. Assim que eu aumentei meus seguidores, pessoas dos torneios e circuitos começaram a notar. Eles não sabiam do Forty Deuce ou quem eu era, mas conheciam o “fortydeucetwits” e sabiam que eu tinha mais seguidores que muitos jornalistas. Então, quando eu pedia credenciais, as pessoas que tomavam essas decisões pelo menos sabiam quem eu era, o que já era metade da briga. Isso ajudou muito em me dar um empurrão inicial. Da mesma forma, isso me ajudou com empregos freelancer como jornalista, porque eu era conhecida no Twitter. Na verdade, acho que minha presença lá fez com que as pessoas pensassem que eu era mais importante do que eu realmente era.

Que coisas você teve que mudar no seu blog desde que se mudou para a SI? Linguagem, conteúdo, responsabilidades, essas coisas.

Bom, eu não escrevi nada para o Forty Deuce desde que me mudei para o SI, o que é mais resultado de falta de tempo. Eu estou o tempo todo com o SI, então passo meus dias monitorando notícias, lendo o Twitter, escrevendo e, claro, vendo tênis. Em média, eu passo provavelmente 14 horas por dia fazendo algo relacionado a tênis. Isso soa insano, mas é bem normal para mim. É quanto eu trabalhava quando era advogada e não é tão diferente do que eu fazia quando ficava apenas no Forty Deuce.

Mas eu pretendo escrever para o Forty Deuce enquanto trabalho para o SI, então acho que as mudanças são basicamente linguagem e tom. Posso ser mais livre no Forty Deuce do que no SI, mas não tanto como eu era. Vou precisar de um tempo para acertar isso, mas espero voltar a blogar no Forty Deuce durante as férias do tênis. Deus sabe que tenho muitas histórias desse meu ano de viagens que eu adoraria compartilhar.

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Os jornalistas hoje se dividem entre os que abraçam as mídias sociais como complemento de seu trabalho ou rejeitam as mesmas pelo seu apelo muito popular. O fato é que o repórter que está atento à internet tem muito mais noção da repercussão dos fatos, do que interessa aos seus leitores/espectadores e tem uma resposta bem imediata em relação ao que faz. Essa proximidade com o público costuma trazer um pouco de informalidade para a maneira com que os jornalistas escrevem e isso não é necessariamente negativo.

Pessoalmente, vejo o trabalho da C Note como um grande tapa na cara de todos que acham que o esporte só deve ser relatados somente com base em estatísticas, sem espaço para descontração. Admiro o time dos jornalistas bem-humorados. Eles geralmente não são arrogantes de achar que suas opiniões são a verdade, possuem auto-crítica e conseguem fazer ótimas relações entre o esporte e outras áreas da sociedade. Com bom gosto e respeito pela informação.

Maravilha, Alberto!

4 nov

por Sheila Vieira

O primeiro programa de futebol a que eu assisti fielmente foi o “Rockgol”. Eu sempre gostei de esporte, mas não me identificava com os jornalistas esportivos “comuns”. Eles pareciam falar com o mesmo público: homens adultos entre 20 e 60 anos que um dia sonharam em ser o Ronaldo, o Rivaldo, o Messi… Eu não. Nunca quis jogar nada, nem nas aulas de Educação Física. Eu gostava de ver, de falar sobre esporte de uma forma que mostrasse o quanto ele é hilariamente dramático e divertido.

Curiosamente, quando fomos entrevistar o Marco Bianchi (vocês sabem, um dos apresentadores do programa) para este blog, ele nos falou sobre como esse tipo de informação com humor havia se espalhado nas emissoras a ponto de deixar o “Rockgol” muito igual ao resto. 

‘Virou quase uma regra, não uma exceção’

“Não sei se lançamos essa tendência, porque eu não conheço a história da TV desde o começo, mas no momento em que isso estava meio abandonado, esse casamento de entretenimento com futebol, nós resgatamos isso. Tanto que, de um tempo pra cá, todos os programas começaram a ser, digamos, menos quadrados. Surgiram programas de rádio nessa linha humorística, programas de TV que sempre foram convencionais passaram a mudar, o ‘Globo Esporte’ tinha um formato X, passou a ter um formato diferente, isso influenciou muita gente. Virou quase uma regra, não uma exceção”.

‘Hoje, todos os programas são engraçadinhos’

“O jornalismo esportivo tem as suas características próprias, porque o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes, como dizem. Ele permite que você trate o assunto de uma forma mais descontraída. Quero continuar a trabalhar com futebol, mas hoje em dia, para fazer algo que se destaque, não basta ser como era o ‘Rockgol’, porque a distância entre o que era o ‘Rockgol’ e os outros programas diminuiu. Hoje, todos os programas são engraçadinhos. Para ser inovador, teria que ser mais humorístico, feito por humoristas. Não um programa de esportes com humor, mas o inverso”.



Bianchi fez Rádio a TV na USP no começo dos anos 90. Eu estudo (estudei? Estudava? Será difícil conjugar esse verbo no passado) bem pertinho dali, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Quando eu entrei na USP, sentia um certo medo de ser olhada com desprezo por ter o esporte como uma das coisas mais importantes da minha vida. Sei que política é relevante (como economia, cultura, cidadania) e tento como posso estar bem informada sobre tudo isso. Mas há gente por aí mais apaixonada por isso e capacitada para tratar desses assuntos.

Nos meninos da minha sala, eu encontrei um porto seguro para me convencer de que o jornalismo esportivo era um caminho válido e que eu poderia exercitar isso nos trabalhos da faculdade. Por isso, eu perguntei para o Bianchi como ele expressava sua paixão pelo futebol nos limites da ECA.

‘Nunca fomos especialistas’

“Sempre fomos muito ligados ao futebol. Sempre vimos o futebol não como uma fonte de estudo, nunca fomos especialistas, mas sempre interessados. Quando eu comecei a fazer o programa na Rádio USP [começo dos anos 90, Bianchi estudava na Universidade], um dos meus primeiros quadros foi o ‘Mesa Quadrada Futebol Moleque’, era uma sátira de um programa da TV Gazeta chamado ‘Mesa Redonda Futebol Debate’. Antes era apresentado pelo Roberto Avallone, que é um cara super folclórico”.



Referências: Avallone e Gérson

“A principal delas é o [Roberto] Avallone. Há uma série de coisas que ele fala, a cantina chique dos Jardins, as camisas que às vezes ele usava, umas coisas linguísticas dele. Ele fala muito bem o português. ‘Agora os comerciais, mas não vá sequer ao banheiro; ‘estou muito empolgado, exclamação’, ‘Palmeiras, 1,2,3,4, Corinthians zero’. E o melhor é que ele aparentemente se leva a sério, o que o deixa mais engraçado ainda. Ele se envolve de uma forma até doentia com o futebol. O Gérson, o canhotinha, ele falava ‘perfeito’, a voz que eu faço é inspirada nele. Os principais são o Avallone, pelo espírito de envolvimento, e o Gérson pela voz”.



Eu via o “Rockgol” ao vivo e também as reprises. Não imaginava fazer um dia o mesmo que eles (afinal, não sou uma pessoa naturalmente engraçada, pelo menos, não pessoalmente), mas pensava em falar para jovens e dos dois gêneros. O esporte hoje não está apenas em conversas de botecos. Ele está em todos os lugares. Para trazer o jovem e as mulheres para o jornalismo esportivo, não basta colocar uma gostosa como apresentadora. A chave é ligar o esporte a referências culturais e sociais com as quais as pessoas se identificam. Isso exige que os apresentadores estejam totalmente ligados não só em esporte, mas também em comportamento.

‘A descontração agregou mais os jovens’

“A MTV tem publico muito adolescente. A pessoa que tem 25 anos lembra da gente na rádio, mas quem tem 15 só conhece pelo ‘Rockgol’, acha que eu sou jornalista esportivo. Tem que ficar atento aos interesses do público, as músicas, o comportamento. Nas emissoras em geral, os programas de futebol têm um publico muito amplo, porque essa coisa da descontração agregou mais os jovens. O publico de futebol vai de A a Z. Frentistas me conhecem, o garçom fala comigo, gente de 15, 18 anos. Mas eu sou meio avesso a fazer as coisas pensando no público, pensei em fazer coisas naturais para mim, depois pensar onde se encaixa. Há amigos dos meus pais que gostam do meu trabalho, moleques de 15 anos. O futebol prende todos os públicos”.

‘Quatro ou cinco corintianos me agrediram’

“Uma vez eu fiz uma piada do Corinthians no ‘Rockgol’, era um corintiano que ligava ao vivo para o programa, ele falava algumas coisas, a gente tirava sarro. Eu fiz o texto e a voz. Fui numa festa, um cara veio tirar satisfação, parecia de torcida organizada. Eu não estava acostumado com aquilo, fui surpreendido, tentei argumentar, daí quatro ou cinco corintianos me agrediram. Eu tinha operado o joelho, torci de novo, tive que operar de novo. Enfim, me bateram, eu fui fazer BO na delegacia, o cara perguntou quem eram, eu não sabia, falaram que não adiantava, fiz o BO mesmo assim, mas passei por isso”.



‘Era um humor para todos os clubes’

“Eu poderia ter me intimidado, mas só fiquei um pouco mais atento para não dizer coisas que poderiam ser encaradas como ofensa. Ao mesmo tempo, eu fiquei mordido e fiz mais piadas com o Corinthians do que o normal, por uma certa mágoa com esse episódio. Mas foi passageiro, eu sempre mostrei no programa que a brincadeira era com os clubes que estavam mal. Quando Palmeiras estava mal, mas eu brincava mesmo assim, e eu sou palmeirense. Era um programa de humor que o assunto era futebol, os assuntos seriam explorados, não importa o time. Depois as pessoas começaram a entender o espírito do programa, que não perseguia time nenhum. Era um humor para todos os clubes. Pessoas de todos os times gostavam do mesmo jeito do programa”.

‘A fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo’

“Criávamos quadros, mudávamos os cenários, a disposição das pessoas no cenário, a duração, a abordagem dos comentários, sem mudar a essência, mas coisas que representassem renovação. Fazer um programa durante oito anos, ainda mais um humorístico, foi um feito. Mas a fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo [Bonfá]. Era um casamento de estilos, para determinar algo, todo mundo tinha que gostar, era uma configuração que conciliava os interesses. O leque de possibilidades se esgotou. Agora eu pretendo fazer um programa diferente, comigo comandando a mesa, mais quadros de humor, indo mais adiante do que foi o ‘Rockgol’, para se diferenciar do resto. Todos os programas ficaram descontraídos, uns são engraçados, outros tentam ser engraçados. Hoje em dia, aquele jornalismo convencional, quadrado, antiquado, não é mais o mesmo”.



Eu fui ao “Rockgol” uma vez (na plateia, claro), no começo do ano passado. Foi legal, mas eu também senti que o espírito do programa tinha ido embora. Os entrevistados já sabiam mais ou menos o tom das perguntas e como desviar delas. Não havia mais surpresas, como o amendoim entrando no olho do Bianchi enquanto o Bonfá falava ou um “passar bem” que cortava um entrevistado no telefone. Eu senti que o formato com os dois estava acabando aos poucos.

‘Naquela configuração, não dava mais’

“Ele [Bonfá] tem um perfil de comunicador mais convencional, talvez mais versátil. Porque ele já trabalhou no programa da Adriane Galisteu, no TV Fama, agora está no Sportv. Eu sempre fiz humor, eu nunca fiz outra coisa. Sempre procurei enfatizar isso. O Bonfá não. Na rádio, eu fazia parte de criação. O Paulo também fazia vozes, mas ele ficava mais com a parte de administração do escritório, ele e o Felipe Xavier, de venda de patrocínios. No ‘Rockgol’ também. Eu meio que mordia e o Paulo assoprava. Ele sempre amenizava e eu lascando os convidados. Mas era um casamento bom, porque ele amenizava quando ficava um clima meio constrangedor. Ele tinha uma função mais burocrática, mais jornalística, perguntas mais comuns e eu sacaneava mais. Durante muitos anos, ele fez os contratos com a MTV, inclusive no meu nome. A gente tinha estilos diferentes, mas que combinavam. E pelo fato de se conhecer desde moleque, às vezes, ao vivo, eu sabia só de olhar para ele que ele tinha gostado de alguma coisa. A gente tinha um entrosamento muito bom, mas foi uma fórmula que se esgotou. Não fecho a porta para fazermos coisas juntos no futuro, mas, naquela configuração, não dava mais. Por isso, eu decidi que, se eu fizer coisas com futebol, vou fazer com meu projeto, para o meu perfil”.

Tento imaginar o tamanho do desafio que deve ser se desvincular da imagem de outra pessoa. É difícil pensar em praticamente reiniciar uma carreira, sendo que eu estou apenas no meu primeiro emprego, no qual a minha maior responsabilidade é o meu blog (que curiosamente tenta ser ‘engraçadinho’). O Bianchi podia com certeza se acomodar e fazer humor só com esportes para sempre, mas não.

“Minha carreira começou com humor multitemático, mas espero que eu consiga espaço de novo para fazer isso, paralelamente com algo com futebol. A internet é mais uma opção. As emissoras de TV abertas são poucas e limitadas, a internet está quase junto do cabo com faturamento e publicidade. Saí da MTV no ano passado, estou trabalhando mas sem ganhar, então tenho até o final do ano para fechar alguma coisa”, ele disse para nós duas. Ele produz o programa “Descontrole Remoto” e tem um projeto de uma atração de esporte, mas com ênfase total no humor, sem o compromisso de relatar informação o tempo todo.

Apesar de uma história tão rica na TV, ele falou de seus novos planos com a alegria de alguém que acabou de sair da ECA. Daqui a pouco, será a minha vez de dar adeus à USP. Sem a pretensão de ter uma carreira tão bem-sucedida quanto a dele, mas com a intenção de mostrar para as pessoas que o esporte é divertido… e de todos.

Porque se formar é deixar as certezas para trás

30 out

por Marcela Lupoli

Quando abri a porta de casa na sexta-feira, dia 21, e na manchete da Folha li: “Gaddafi é capturado e morto”, pela primeira vez pensei que talvez não devesse mais assinar jornal impresso. Esse pensamento me fez retornar a 2008, ano em que comecei meu curso na ECA, e relembrar as discussões que agitavam a Academia naquela época.

Túnel do tempo:
Mais um dia que começava cedo no Departamento de jornalismo. Os jormats 08* adentravam as salas empolgados e falantes. A menina alta e magra, sem estojo, entrava na sala com sono. Com o jornal nas mãos, perdia-se em pensamentos nos editoriais até que encontrava a pequena de olhos azuis e gritava “meu, isso aqui é genial”. Enquanto isso, um grupo se aproximava lutando pelos restos daqueles papéis, mais precisamente pelo muitas vezes menosprezado suplemento esportivo. A moça séria, inteligente, de mochila do Corinthians, com estojo, sempre era vitoriosa, o esporte era dela. Os meninos, os 8 solitários homens, tentavam se encontrar naquele girlie show. A trilha sonora era um oferecimento dos plec-plec nos teclados. Jormats 08, primeira sala 2.0 do CJE*.

Em uma aula dessas, a professora queria entender o que os fizeram escolher essa árdua profissão. “Eu era bom em tudo”, “eu quero isso desde os três anos”, “meu amigo prestou ECA”, “eu sou uma raposa”. Impressionante como aqueles bixos* gostavam de falar, tinham opiniões e comentários sobre tudo. Mesmo assim eram assombrados pela maior discussão acadêmica da época: o fim do impresso.

A garota dos editoriais escutava: “convergência, blablabla”, “mudanças, blablabla”, “quedas nas vendas, blablabla”. Mas ela tinha certeza de que essa profecia não se cumpriria. Eles não contavam com a fidelidade do público, com a fidelidade dela ao prazer físico de sujar as pontas dos dedos com as páginas pela manhã.

Voltamos a 2011.
Traí o jornal impresso. Pensei, mesmo que por um segundo, que ele não faria falta pela manhã. Minha fidelidade era à leitura, não ao papel. Qual o ponto de ler novamente a morte de Gaddafi? A sensação era de que eu já sabia sobre aquilo há séculos. Mesmo que o jornal trouxesse novas análises em seu interior, ele apostou em sua manchete que o destaque era aquela notícia, aquela “novidade” de um século atrás. Desde aquelas discussões sobre convergência de 2008, o jornal impresso pouco mudou. A fonte ficou mais escura (o que me lembra os jornais panfletários da USP), os textos cada vez menores, as páginas mais coloridas. O ponto é: é mesmo necessário fazer com que o jornal pareça uma página da internet? Se o público quisesse uma página da internet ele não iria simplesmente à própria?

Túnel do tempo (2008):
A garota dos editoriais comenta com a menina bonita que a publicação que ela mais se empolga em ler é a recém lançada Piauí.
Menina bonita diz: “É o maior clichê aqui dizer que gosta da Piauí, né?”

2011.
Superado o trauma de ser uma bixete* clichê, continuo reafirmando, agora sem medo das represálias, que a publicação impressa que mais me empolga é a revista Piauí. Talvez porque sempre tenho a sensação de que a revista falará sobre algo que pode até já ter sido discutido imensamente na mídia, mas o fará de forma original que resultará em uma análise nova (da qual eu posso até discordar, mas que me fará pensar). Além disso, ela se importa com o prazer que dará ao seus leitores. Você não lê a Piauí somente para se informar, mas também porque isso te dá prazer.

O fundador da Revista, João Moreira Salles, em entrevista no ano de 2007:
“Posso afirmar com segurança: a piauí não é uma revista chata. Há cadernos culturais pelo País que as pessoas lêem como criança comendo espinafre, quase que por obrigação. A piauí não é assim, ela é bem humorada. Eu e o Mario Sérgio [Conti, editor da revista] insistimos para que ela tenha humor. O que não pode acontecer é confundir chatice com leitura. Não se lê a piauí como se corre na esteira – que, aliás, é a coisa mais chata do planeta.”

De 2008 até hoje, a Piauí continua com seus textos enormes, suas fotografias instigantes, suas capas irônicas. Indo na contramão de tudo o que acreditavam que salvaria o impresso. E são todas essas características que a distanciam da aposta dos jornais tradicionais que a fazem um sucesso editorial. Em 2008, todos acreditávamos que a lógica era cortar o máximo de palavras possíveis, investir em um layout didático e secar os textos cada vez mais. Era essa nossa resposta para os desafios do impresso.

Não é possível comparar uma revista de 60 mil exemplares com um jornal de 300 mil. Entretanto o sucesso da publicação de Moreira Salles ensina algo importante para as outras publicações brasileiras: nem sempre a resposta é óbvia.

Penso nos alunos que estarão prestando Fuvest em um mês. Penso se procurarão essas respostas não óbvias, penso se já virão com preconceitos conservadores sobre o papel do jornalismo. Torço para que eles tenham menos certezas do que tivemos.

*jormat08: apelido da turma de Jornalismo matutino da ECA-USP que entrou em 2008.

*CJE: departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP

*bixos: como os calouros da USP são chamados

Liberou geral no jornalismo esportivo

12 out

por Sheila Vieira

Como você classificaria o jornalismo esportivo brasileiro atualmente? Muito brincalhão, sério, bom, péssimo? Essa é uma pergunta difícil de se responder em um momento em que toda a crônica esportiva parece estar, ao mesmo tempo, experimentando, acertando, errando e, principalmente, servindo como um espaço de testes para as outras áreas da imprensa. 

De editoria rejeitada e diminuída, o esporte virou o espaço mais “descolado” do jornalismo. Quem foi o primeiro a fazer piadas durante um VT na Rede Globo? O Tadeu Schmidt no “Fantástico” ou, se você quiser ir um pouco mais para trás, o Régis Rosing na reportagem. Hoje, o “show da vida” é totalmente influenciado pelas brincadeiras e informalidades que o irmão de Oscar trouxe. E, certamente, Tiago Leifert não teria o OK da emissora para o seu formato de “Globo Esporte” se a ‘experiência Tadeu’ não tivesse dado certo. 

O ponto é que o esporte, talvez por causa do preconceito sofrido por tanto tempo dentro das redações, usou como resposta uma maior liberdade de linguagem. Não havia medo de exagerar ou de deixar um pouco da paixão de torcedor ou do ufanismo fazer parte do jornalismo, porque não se tratava de uma área “séria”. 

Bem, isso mudou bastante. As primeiras marcas da crônica esportiva foram os textos dramáticos de Nelson Rodrigues e Mário Filho, as narrações emocionantes do rádio e a exaltação dos atletas e times nacionais. No entanto, uma das figuras mais importantes do jornalismo esportivo atual representa o oposto de tudo isso. 

Estou falando de Paulo Vinícius Coelho, o PVC da ESPN Brasil. Conhecido como “o homem dos números e de uma memória incrível”, esse jornalista inspirou um grande número de telespectadores (incluindo a autora deste texto) ao desejo de trabalhar com esportes. Mais do que isso, de vê-lo sendo tratado como algo sério, quase científico, relevante e que fosse um ótimo objeto de reflexão. Ele levou o jornalismo esportivo a um novo patamar de excelência. 

Curiosamente, PVC fala em um dos seus livros (‘Jornalismo Esportivo’, Editora Contexto, 2003) que estava faltando uma certa ousadia dos seus colegas para falar de esporte: 

“Análise tática sobre jogo de futebol vai sempre valer relatos dignos de fazer o torcedor mais fanático se arrepiar tanto quanto a descrição perfeita da partida de futebol. A conquista do título, a jogada brilhante, a história comovente sempre fizeram parte do esporte. E sempre mereceram o tom épico que desapareceu das páginas dos jornais e revistas e dos relatos de emissoras de rádio e de televisão”.

Ele disse isso logo após falar sobre Mário Filho e Rodrigues e defender a presença de um tom literário no jornalismo esportivo que ele via desaparecendo. Mal sabia PVC que os próximos anos seriam cheios de criatividade, exagerada ou não, mais para o lado do humor do que da Literatura. 

Nomes como Paulo Bonfá, Marco Bianchi, Tadeu Schmidt, Tiago Leifert e Milton Neves trouxeram (de maneiras bem distintas) muita irreverência para o jornalismo esportivo. Os dois humoristas ex-MTV, por exemplo, criaram no “Rockgol” uma sátira para homenagear e criticar o que se via na TV, nos jornais e no rádio. 

A internet, com seu ambiente mais democrático e efêmero, embarcou nessa tendência e fez com que ela se expandisse ainda mais. Os grandes portais de notícias contam com 24 horas de ‘circulação’, ao invés de 30 minutos espremidos numa grade de programação. Portanto, podem ter um espaço para notícias mais sérias e fazer um blog só com curiosidades. O UOL, por exemplo, tem vários deles, como o “UOL Esporte Vê TV”, em que o assunto não é o esporte em si, mas como é feita a cobertura sobre ele. Os personagens não são os atletas, mas os jornalistas. 

As diferenças entre todas essas investidas, o sucesso de cada uma delas e a recepção do público ficam para os próximos posts. Por enquanto, quero saber como vocês avaliam o jornalismo esportivo atual. Para isso, usem a enquete, os comentários e soltem o verbo!

A resistência

12 out

Por Marcela Lupoli

Revolução! Esse título é uma piada. A palavra “revolução” poucas vezes é usada adequadamente e nesse blog, definitivamente, não é o caso. Estamos falando aqui das inúmeras mudanças que a comunicação (e toda sociedade) presenciou e fez parte desde a Revolução Tecnológica nos longínquos anos 60!

Se houve alguma revolução, o jornalismo não é o melhor meio para ilustrarmos essa quebra de padrões, esse rompimento com o tradicional. Nos jornais, nas emissoras de televisão, nas revistas tudo é ainda muito semelhante ao que era feito há 40 anos. Não usamos mais a máquina de escrever, a imagem é “high definition”; mas o lide e a escaleta continuam soberanos.

Muitos ainda sentem prazer em sujar os dedos com o jornal que chega na porta de casa no domingo (como a autora que vos fala), muitos ainda se emocionam com a voz solene que narra os acontecimentos da semana e há aqueles que chegam a dar boa noite para o moço da televisão. Mas admitamos, não é a maioria.

Quem tem vinte e poucos anos agora já cresceu em um mundo onde o espaço se tornou mais subjetivo: televisão a cabo, celular, internet. Crescemos com os meios de comunicação se modificando e incorporamos essa sensação de que tudo ainda vai se transformar, de que não adianta esperarmos algo para daqui cinco anos, porque , com certeza, seremos surpreendidos.

Bom, imagine quem nasceu no meio dos anos 90. Imagine que essas pessoas não conhecem um mundo desconectado, um mundo que não possibilite organizar seus interesses da forma que mais lhes agrada. São pessoas que enquanto leem um livro sentem falta de dar ctrl F para encontrar o trecho desejado. É uma geração que cresceu podendo editar suas próprias imagens, fazer seus próprios vídeos, postar, compartilhar.

É claro que a comunicação com essas pessoas não pode se dar da mesma forma que era realizada em outras décadas. Parece lógico, mas mesmo assim há uma enorme resistência do jornalismo “tradicional” em mudar essa realidade. Isso se torna ainda mais polêmico quando a palavra entretenimento entra em jogo. Há diversos fatores históricos que serão discutos na página “home” e que explicam, parcialmente, alguns dos motivos que fazem com que o jornalismo tenha verdadeiro pânico de entreter.

Contudo, a mudança é inevitável. Estamos bem longe de uma revolução, mas já existem alguns jornalistas de pé por aí tentando inventar alguma coisa nova. Nos próximos posts vamos analisar algumas dessas tentativas de modernização do jornalismo. E vocês vão nos ajudar a pensar o jornalismo do futuro. O que está dando certo, o que está dando errado? Vamos descobrir isso juntos!