Tag Archives: entretenimento

10 momentos Epic Fail da festa da CBF

6 dez

Eu havia prometido não assistir ao prêmio Craque do Brasileirão, promovido pela CBF e pelo Sportv, porque queria escutar os comentários de Juca Kfouri sobre Sócrates na ESPN no mesmo horário (sei que ele escreveu muita coisa, mas queria vê-lo… enfim). Mas a sucessão de gafes comentadas pelo Twitter me ganhou.

Sou mórbida e gosto de gafes. Beijos.

Vamos então pensar nos 10 motivos para o Epic Fail da premiação desta segunda:

1 – O problema não é ser super produzida. É ser mal produzida.

Foi um dos meus tweets durante a premiação. Por mais que as pessoas adorem um motivo para descascar Luciano Huck, Glenda (sem paciência de googlar o sobrenome) e Tiago Leifert, eles fizeram o que podiam diante da organização nula da premiação. Vídeos que demoravam para serem passados (muitos deles pareciam editados no Movie Maker), envelopes que não chegavam, indecisão sobre quem falava em qual momento, etc.

Tudo isso mostra falta de ensaio. Numa festa que pretende imitar o padrão “Oscar”, isso não pode acontecer, como não aconteceu no ano passado, em que tudo correu razoavelmente bem. Não acho que o erro esteja no formato. Por mais que a Bola de Prata Placar/ESPN tenha mais tradição e prefira algo mais “low-profile”, se os veículos tivessem mais recursos, certamente fariam uma festa maior.

2 – Aldo Rebelo avulso

O mundo dá voltas. Aldo Rebelo numa festa da CBF. Pois bem, o Ministro subiu ao palco totalmente perdido, sem saber o que fazer. Glenda tentou ajudá-lo, Huck gritou “dá pra ler aí, Ministro?”, enquanto Rebelo procurava sem sucesso a tela na qual estava seu texto. Ele leu pausadamente, com a Glenda quase ditando tudo e depois alguém o tirou do palco. Épico.

3 – Huck alfinetando o Leifert

Nós amamos odiar o Huck. Claro, ele ficou famoso apresentando um programa cuja atração principal era uma gostosa com fantasia de brechó, casou com a linda da Angélica, copia reality shows americanos que ‘mudam a vida das pessoas’ (Gugu faz isso desde os anos 90) e é amigo dessas celebridades globais felizinhas. Mas ele foi o que se saiu melhor nessa premiação, justamente porque não fez muita questão de esconder seu desconforto com os erros da produção. Não satisfeito, ainda fazia cara de preguiça e comentários “awkward” depois das piadas do Leifert.

4 – Leifert querendo consertar tudo

Antes a moda era gostar do Leifert. Aparentemente, agora é odiá-lo. Nunca fiz parte de nenhum desses times. Acho que ele é um apresentador competente, engraçado, um pouco repetitivo e que implantou uma informalidade na hora de fazer seu trabalho que trouxe uma consequência indesejada: o status de celebridade. Como sabemos, celebridades costumam ser rejeitadas na internet. A reação de Leifert na festa foi fazer o “Ricky Gervais”, ou seja, colocar um pouco o dedo na ferida. Não deu muito certo. A coroação foi a tentativa de fazer Diego Souza ensinar uma dança a Geraldo Alckmin. O jogador ignorou solenemente.

5 – Geraldo Alckmin avulso

Copie aqui a parte do Aldo Rebelo.

6 – Rogério Flausino e Nando Reis

HE’S EVERYWHERE! Flausino não perde uma e a sua super exposição fez mal até ao Jota Quest, que não é uma banda tão ruim como nós esbravejamos. Escolha do repertório: Fio Maravilha e É Uma Partida de Futebol. OLÁ, CRIATIVIDADE. Pior: Nando errou a letra. Depois de todas as vezes que essa música já tocou em eventos ligados ao futebol, isso é um insulto.

7 – Cadê a Glenda?

Sinto na internet também um clima de “odeio a Glenda” por ela ser uma pessoa, digamos, muito feliz. Sua escolha por apresentar reality shows também não foi muito bem vista. Na festa da CBF, a jornalista ficou de lado a maior parte do tempo, o que parece até bom, já que Huck e Leifert improvisam melhor. Mas Glenda deixou sua contribuição com o EPIC FAIL quando chamou Marco PAULO Del Nero para o palco. Sim, é Marco Polo. Até quem não manja de futebol sabe, porque né, tem nos livros de História.

8 – Huck trollando (?) o Ricardo Teixeira

“O senhor como apresentador é um ótimo dirigente”

Até agora estou pensando se é um elogio ou uma trollada. Só sei que morri de rir.

9 – Galvão trollando tudo

Dedé ganhou o prêmio principal depois do Neymar e não apareceu para receber, sendo que já havia subido ao palco antes. Leifert então diz: “ele está dando entrevista para o Galvão”. WIN do tiozão.

10 – Zorra Total

Deixei para o final, porque foi de longe o pior momento. Sei que esse quadro do metrô existe e faz relativo sucesso. Espero sinceramente que seja melhor no Zorra Total do que foi ontem na premiação. Totalmente fora de contexto, o segmento causou tanta “vergonha alheia” que o câmera demorou a descobrir alguém animado o suficiente para fingir uma risada. No caso, Ronaldinho Gaúcho. O que não diz nada, já que ele está obrigatoriamente sempre sorrindo.

Anúncios

Um bom exemplo

19 nov

Nós temos falado aqui há algumas semanas que é possível sim juntar jornalismo ao entretenimento sem desvalorizar a notícia, sem mentir ou tratar de forma pobre a informação. Falamos sobre o “Rockgol” como um bom exemplo de experiência nesse sentido, mas a atração não era essencialmente jornalística. Portanto, qual seria um bom exemplo dessa tendência na imprensa? Gostaria de indicar algo brasileiro, mas tudo que me vem à mente é o trabalho da americana Courtney Nguyen com o tênis.

Conheci Nguyen, ou melhor, a “Forty Deuce” através do Twitter, quando eu procurava (e surpreendentemente achava) pessoas tão viciadas no microblog e no tênis quanto eu. Lá e no seu blog, ela fala sobre o esporte com uma perspectiva muito singular. Sendo mais clara, engraçada. Principalmente quando escrevia sobre detalhes curiosos dos jogos (como esse post hilário sobre o match-point do Andy Roddick).

Nguyen, que tem mais de 6.600 seguidores em suas duas contas no Twitter, começou a viajar para os torneios de tênis no mundo todo, conseguiu credenciais e começou a fazer um trabalho de cobertura muito mais completo do que se encontrava nos sites de notícia tradicionais. Por isso, foi contratada pela Sports Illustrated para comandar o blog de tênis do portal. Se há alguém que me inspirou no meu blog e me provou que não precisava ser caretinha para escrever sobre esporte, foi ela.

Entrevistei por email (por isso as perguntas estilo questionário) a “C Note” para que ela explicasse melhor a receita do seu sucesso e desse sua opinião sobre o “confronto” entre a mídia tradicional e as redes sociais.

Quando você começou a seguir tênis e por quê? Você sente que as pessoas têm uma visão errada do tênis, como se ele fosse entediante, quando na verdade é divertido?

Eu sempre segui tênis. Meu tio, que costumava cuidar de mim, era um grande fã na época de Ivan Lendl, Boris Becker e Stefan Edberg, então eu tenho algumas memórias desses caras. Mas eu voltei para o jogo mesmo por volta de 2006 e tem sido meu esporte favorito desde então. Eu costumava citar estatística de beisebol de cor. Agora eu consigo dizer a qualquer momento em qual cidade cada tenista está. É uma grande mudança.

Eu acho sim que o tênis sofre com um problema de imagem. As pessoas acham que só há brancos jogando, tomando champanhe, com pessoas de “country club” elegantes vendo silenciosamente duas pessoas batendo numa bola. Confesso que também achava isso quando era mais jovem. Mas as coisas mudaram totalmente agora. O que digo para meus amigos é “me dê uma hora. Assista por uma hora e eu prometo que você vai gostar mais do que gosta agora”. Nunca falha, O jogo é emocionante, é rápido e o fato de ser uma batalha um contra um o diferencia da maioria dos esportes.

Como você define o seu estilo de escrita?

Não sei se escritores gostam de responder essa pergunta. Requer um certo nível de auto-conhecimento que a maioria de nós tenta manter para não ficarmos no mesmo lugar. Não sei qual é meu estilo, mas acho que posso dizer qual espero que seja. Eu tenho mais orgulho do meu trabalho quando sinto que há um ritmo em como eu construo as frases e parágrafos, para que eles sejam não só fáceis de ler, mas também divertidos. Para isso, não tenho problema em deixar de lado a gramática ou regras para que soe do jeito que eu quero. Quando escrevo sobre tênis, quero que as pessoas se divirtam, porque elas conseguem sentir a paixão e o gosto que eu tenho escrevendo sobre o esporte. Claro, elas também dão uma ou duas risadas. É muito difícil escrever mais que três frases e não injetar algum humor em algum lugar, mesmo se for apenas para mim.

Beyond the Baseline: o novo blog no Sports Illustrated

Você concorda que essa abordagem diferente do esporte se encaixa bem na era das mídias sociais, quando o esporte é seguido por um público mais jovem?

Absolutamente. Blogar é uma grande ferramenta, não só para jovens criarem uma plataforma e praticarem sua habilidade de escrita, mas também é um jeito de vários pessoas encontrarem informações e comentários nos dias de hoje. O advento do Twitter trouxe certamente mais cinismo e desconfiança dos jovens em relação à imprensa de tênis tradicional. Certas opiniões injustas e incoerentes de jornalistas ficaram mais evidentes no Twitter, o que pode levar a uma perda de autoridade. Blogueiros e tuiteiros ajudam a preencher esse vácuo. Há certos blogueiros que eu sigo porque eles são bons em monitorar histórias pequenas do que as grandes. Há outros que eu sigo porque adoro suas opiniões e sei que eles são justos e objetivos. E há os que eu sigo que são muito injustos, mas eles me divertem de uma certa maneira. Ter a possibilidade de escolher e criar minha própria “imprensa” aumenta minhas chances de aprender e curtir o jogo. Quando se trata de comentários, opiniões ou análises, tenho que dizer que confio mais em vários blogueiros e tuiteiros do que muitos na mídia tradicional.

Blogueiros nunca vão substituir jornalistas, nem deveriam. Se há algo que eu diria para os jovens blogueiros ou tuiteiros, é que eles devem ser justos quando se trata de jornalistas. Eles que têm os contatos e as fontes que dão a eles a possibilidade de descobrir fatos e reportar notícias. Não posso pegar meu celular e ligar para o empresário da Maria Sharapova para confirmar algo. Eles podem. Tudo se perde sem os jornalistas e ainda bem que o tênis têm ótimos.

Você já sentiu preconceito quando conheceu jornalistas “tradicionais” por ser blogueira? Como é seu relacionamento com eles?

Minha experiência sempre foi bastante positiva quando lidei com outros repórteres, oficiais dos torneios e pessoas de comunicação do circuito. Não concordamos o tempo todo e às vezes eu ‘tenho uma preguiça’ do que eles escrevem ou dizem, mas não significa que eles sejam más pessoas ou não fazem bem seu trabalho. O esporte é cheio de gente de muita qualidade e se não fosse o caso, não ia querer fazer parte disso.

Dito isso, claro que eu tive alguns problemas no caminho, quando senti que fui subestimada ou desrespeitada simplesmente porque sou blogueira. Eu tenho cara de jovem, sou a nova garota do pedaço. Quando você começa, pode ser um choque, especialmente porque você percebe como a sala de imprensa é cheia de cliques e você não conhece ninguém. Mas isso muda com o tempo e eu tive muita sorte de conhecer pessoas que me apoiaram. Assim que isso aconteceu, a sala de imprensa não parecia mais tão solitária.

C Note clicou a mochila Hello Kitty da Serena Williams

Você deixou seu emprego anterior para ser uma escritora de tênis. O que motivou essa decisão?

Eu fui advogada por sete anos e chegou um ponto que eu percebi que aquele não era o tipo de escrita de que eu gostava. Eu passava 12 horas por dia escrevendo cartas, emails e pautas, mas os 15 minutos que eu tirava para escrever um post no Forty Deuce eram o momento mais feliz do meu dia. Queria uma plataforma criativa e mais tempo para escrever. Assim que eu percebi que eu preferia ser uma escritora do que ter o prestígio e o dinheiro que a advocacia me dava, a decisão foi instantânea e muito fácil.

Como o Twitter ajudou seu blog, além de trazer uma nova audiência? Você se sente melhor informada com as mídias sociais?

Sou uma grande fã do Twitter, como muitos sabem. Se eu não checo o Twitter a cada 30 minutos pelo menos, me sinto totalmente fora de órbita. É horrível e grosso quando estou com família e amigos. Como blogueira independente, o Twitter me ajudou demais porque há mais pessoas no Twitter do que leitores de blogs. Assim que eu aumentei meus seguidores, pessoas dos torneios e circuitos começaram a notar. Eles não sabiam do Forty Deuce ou quem eu era, mas conheciam o “fortydeucetwits” e sabiam que eu tinha mais seguidores que muitos jornalistas. Então, quando eu pedia credenciais, as pessoas que tomavam essas decisões pelo menos sabiam quem eu era, o que já era metade da briga. Isso ajudou muito em me dar um empurrão inicial. Da mesma forma, isso me ajudou com empregos freelancer como jornalista, porque eu era conhecida no Twitter. Na verdade, acho que minha presença lá fez com que as pessoas pensassem que eu era mais importante do que eu realmente era.

Que coisas você teve que mudar no seu blog desde que se mudou para a SI? Linguagem, conteúdo, responsabilidades, essas coisas.

Bom, eu não escrevi nada para o Forty Deuce desde que me mudei para o SI, o que é mais resultado de falta de tempo. Eu estou o tempo todo com o SI, então passo meus dias monitorando notícias, lendo o Twitter, escrevendo e, claro, vendo tênis. Em média, eu passo provavelmente 14 horas por dia fazendo algo relacionado a tênis. Isso soa insano, mas é bem normal para mim. É quanto eu trabalhava quando era advogada e não é tão diferente do que eu fazia quando ficava apenas no Forty Deuce.

Mas eu pretendo escrever para o Forty Deuce enquanto trabalho para o SI, então acho que as mudanças são basicamente linguagem e tom. Posso ser mais livre no Forty Deuce do que no SI, mas não tanto como eu era. Vou precisar de um tempo para acertar isso, mas espero voltar a blogar no Forty Deuce durante as férias do tênis. Deus sabe que tenho muitas histórias desse meu ano de viagens que eu adoraria compartilhar.

_______________________________________________________________________________

Os jornalistas hoje se dividem entre os que abraçam as mídias sociais como complemento de seu trabalho ou rejeitam as mesmas pelo seu apelo muito popular. O fato é que o repórter que está atento à internet tem muito mais noção da repercussão dos fatos, do que interessa aos seus leitores/espectadores e tem uma resposta bem imediata em relação ao que faz. Essa proximidade com o público costuma trazer um pouco de informalidade para a maneira com que os jornalistas escrevem e isso não é necessariamente negativo.

Pessoalmente, vejo o trabalho da C Note como um grande tapa na cara de todos que acham que o esporte só deve ser relatados somente com base em estatísticas, sem espaço para descontração. Admiro o time dos jornalistas bem-humorados. Eles geralmente não são arrogantes de achar que suas opiniões são a verdade, possuem auto-crítica e conseguem fazer ótimas relações entre o esporte e outras áreas da sociedade. Com bom gosto e respeito pela informação.

O humor e o jornalismo, por Marco Bianchi

4 nov

É impossível falar sobre entretenimento sem falar de humor. De forma estratégica, natural ou polêmica, fazer rir tornou-se quase uma obrigação entre os veículos de comunicação. Musa do jornalismo esportivo, a piada já se infiltra até em jornais “elegantes”, como o Jornal Hoje. Quando bem utilizado, o humor é capaz de fazer uma abordagem não só mais agradável de determinado tema, mas também de realizar críticas mais profundas e de maior impacto entre os espectadores.

Contudo, não falta exemplos de programas mal feitos, humoristas e jornalistas perdidos e tiradas sem graça. Mas não desistimos de provar que é possível fazer um jornalismo critavo, inovador e, também, bem humorado. Assim, saímos em busca de alguém que nos explicasse como é esse humor que funciona. Comece ler nossa matéria aqui:

“Ficou esse rótulo na minha cabeça”. Um humorista que trabalhou desde o início com vários tipos de assuntos, mas ficou conhecido nacionalmente através de um programa de esportes. Marco Bianchi, 39, está tentando voltar às origens após sair da MTV, onde apresentou o ‘Rockgol’ ao lado de Paulo Bonfá por oito anos (contando o campeonato, 15).

Em conversa com as (prestes a serem ex-ecanas, como ele) autoras deste blog, Bianchi tem dois projetos em andamento: um sobre esporte, mas com uma abordagem diferente do ‘Rockgol’, e uma sátira a formatos de televisão chamada “Descontrole Remoto”.

Se os grandes astros da atual MTV são comediantes como Dani Calabresa, isso tem muito a ver com o ‘Rockgol’. O programa fez parte de uma renovação do canal no fim dos anos 90, buscando formatos diferentes do clássico VJ + videoclipe + matérias da MTV americana. O canal foi deixando de ser exclusivamente musical para abraçar todo o entretenimento, incluindo o futebol. Quando lançou o campeonato entre músicos em 1996, a MTV buscou um grupo de radialistas para fazer uma narração nada convencional.

O grupo era formado por Bianchi, Felipe Xavier e Paulo Bonfá, que se conheceram ainda crianças. O nosso entrevistado fez Rádio e TV na USP e se reuniu no começo dos anos 90 com os amigos na 89 FM para fazer o “Sobrinhos do Ataíde” (lembra do Xiiii Marquinho?). Um dos quadros da atração era o “Mesa Quadrada Futebol Moleque”, uma sátira do “Mesa Redonda Futebol Debate”, que era apresentado por Roberto Avallone na TV Gazeta.

“Esse quadro fazia sucesso, ele falava “primeiro bloco, Palmeiras”, “segundo bloco, mais Palmeiras”, “terceiro bloco, só Palmeiras”, quarto bloco “Corintia, São Paulo, seleção brasileira, meninos do vôlei, gêmeos do Pelé, caso Edmundo e mais uma pitadinha de Palmeiras”, lembra Bianchi.

Trabalhando na TV, os três humoristas tiveram que aprender uma nova linguagem, mas já tinham seus papéis definidos. “Eu e o Paulo nunca tínhamos feito narração de jogo de futebol, muito menos o Felipe Xavier. Mesmo com inexperiência, deu certo, por causa da facilidade que a gente tinha com futebol e pelos personagens. O Paulo representa mais a própria personalidade, ele não encarna personagem. Ele é ele mesmo com mais besteirol. Agora eu já inventava voz, falava que eu era formado na Foderj em jornalismo esportivo e começava a inventar coisas”.

Após uma breve passagem pela Band, eles retornaram à MTV para fazer uma mesa redonda semanal. Inspirado nos antigos programas esportivos, o ‘Rockgol’ e sua veia bem-humorada acabaram lançando uma nova maneira de falar sobre esporte, mais ligada aos jovens, ao comportamento e ao entretenimento. Oito anos depois, com todos os diários esportivos tentando ser ‘engraçadinhos’, vale a pena resgatar a história de Bianchi e do programa.

A entrevista está dividida em duas partes que nos ajuda a aprofundar a questão do humor em nossos posts. Na seção “Revolução”, você saberá como Bianchi vê o humor e sua opinião sobre polêmicas atuais, como o caso Rafinha Bastos. Em “Na Esportiva”, a sua receita para falar do esporte de forma engraçada, crítica, uma agressão que sofreu por uma piada e a razão pela qual o formato do ‘Rockgol’ se esgotou. Boa leitura:

Humor politicamente equilibrado: sobre os limites dos comediantes

Maravilha, Alberto: o ‘Rockgol’ e o jornalismo ‘engraçadinho’

Humor politicamente equilibrado

4 nov

por Marcela Lupoli

As pataquadas do senhor-mais-influente-do-mundo-no-twitter (Mister Rafinha Bastos) fez com que surgissem verdadeiras editorias nos grandes portais da internet a fim de se discutir os limites do humor (e cifras para os processos de Bastos). Com a febre do stand up comedy no Brasil e sua incorporação pelas emissoras abertas de televisão, as piadas se dividem entre instrumento de crítica e instrumento de polêmica.

Neste post, vai nos interessar a inserção do humor no jornalismo. O próprio Rafinha é jornalista, formado pela PUC-RS e alcançou a fama (inter)nacional através do CQC, programa da Rede Bandeirantes que aborda pautas jornalísticas através do humor. O programa de Marcelo Tas fez sucesso desde sua estreia e já está no ar há quatro anos. O prestígio de Marcelo e o talento de seus integrantes, principalmente nas matérias políticas, fizeram do “Custe o que Custar” queridinho do público e da comunidade artística até as polêmicas recentes.

Apesar de inovador em sua época e contexto, o programa não foi pioneiro na união de jornalismo e humor apostando em críticas ácidas e entrevistas inusitadas. O próprio Tas já fazia isso nos anos 80 no programa “Olho Mágico” em que ele, Ernesto Varela, e seu câmera Waldeci (Fernando Meirelles!!!) faziam uma dupla de jornalistas ingênuos e sinceros a demasia que arrancavam declarações antológicas dos entrevistados.

Voltando ainda mais no tempo, agora no impresso. Lá pelos idos dos anos 50 e 60 os cronistas, cartunistas e chargistas passam a ter mais destaque e sucesso. Millôr Fernandes, Ziraldo e Jaguar começam a ser conhecidos nessa época e passam a inspirar gerações que matém vivos os espíritos dos cartuns ainda hoje na imprensa.

A crítica irônica e ácida também está longe der uma novidade nos meios de comunicação. Jabor, Veríssimo, Francis, para pensamor em nomes de articulistas famosos por suas opiniões polêmicas em suas crônicas bem construídas. Todos eles beberam da fonte Nelson Rodrigues, o dramaturgo jornalista apaixonado por futebol.

E falando sobre Nelson Rodrigues que esse post se relaciona com o entrevistado do blog, o humorista Marco Bianchi. Quando perguntamos a ele sobre ser inovador no tratamento do esporte com humor, ele não se sentiu a vontade com o título de pioneiro e logo citou Rodrigues como alguém que inspirou todos os que tentam falar de esporte de uma forma diferente.

Além do escritor, Bianchi discorreu sobre várias outras influências. “Sou fã de Charles Chaplin, revi Luzes da Cidade e é genial, é a grande referencia para qualquer humorista. Woody Allen, Asterix, Monty Python, Kino, irmãos Caruso, Simpsons, Futurama, Jô Soares, Chico Anysio (referências pra minha geração). Os Trapalhões! Eles hoje seriam detonados, imagina, tinha um negão manguaceiro, um careca gay e um cearense de cabeça chata. Seriam super criticados, mesmo como o Chaplin, que chutava a bunda de alguém e pagava o dinheiro do ricaço”.

Apesar de não repudiar a “piada pela piada”, Bianchi conta que uma preocupação constante em sua carreira é usar o humor como uma forma de crítica. Ele acredita que o humor pode conscientizar e atingir um público maior do que se simplesmente desse sua opinião como um especialista. “Eu brincava com os merchandising (que era uma confusão entre jornalismo e comercial), eu falava do calendário da seleção, falava que era para fazer campeonatos municipais. Daí fazia municipais num semestre, estaduais no outro, e nos cinco semestre restantes os outros torneios. (risos) Muitas vezes eu brincava com isso, fazia o Fofo Ricácio Peixeira, dono da CBD, era a sigla antiga, para mostrar que eles tão parados no tempo. Uma brincadeira com a crítica embutida, é esse que eu acho o humor mais completo. É mais inteligente, mais rico, mais profundo. Isso que faz o humor uma forma de crítica útil”.

E o assunto, claro, chegou aos limites do humor. Marco responde sem titubear. Para ele, existe uma onda do politicamente correto muitas vezes agressiva, principalmente nas redes sociais. “É complicado, as vezes eu faço piada e recebo respostas agressivas, a ignorância das pessoas é um entrave para o humor, você é mal interpretado. Isso (o politicamente correto) chegou a um extremo que você deve descrever o Saci Pererê como afro-descendente portador de necessidades especiais. Então existe essa hipocrisia, as pessoas tem que aceitar a crítica. As vezes a brincadeira é pela brincadeira.”.

Entretanto, Marco acredita que é possível haver um equilíbrio entre esse politicamente correto excessivo e a nova moda do politicamente incorreto. “Eu não tomo partido do Rafinha Bastos, por exemplo, porque acho que ele faz mais marketing em cima do politicamente incorreto. Ele se colocou como o defensor dos desbocados, o porta bandeiras dos politicamente incorretos. Então, as vezes, as piadas perdem um pouco da naturalidade.A piada atende a essa necessidade de perfil, mas não tem graça ou é uma piada de mau gosto, como essa da Wanessa Camargo. Não acho que seja o caso de processar. Não acho que seja um drama, se fosse comigo eu não iria querer processar. Mas isso é marketing, eu não gosto disso. Os dois extremos me desagradam. O legal é fazer humor que seja construtivo, ser arrojado sem ter mau gosto, o equilíbrio. Não me identifico com as pessoas que acreditam que qualquer brincadeira é discriminação e nem com o Rafinha e os extremos opostos”.

Maravilha, Alberto!

4 nov

por Sheila Vieira

O primeiro programa de futebol a que eu assisti fielmente foi o “Rockgol”. Eu sempre gostei de esporte, mas não me identificava com os jornalistas esportivos “comuns”. Eles pareciam falar com o mesmo público: homens adultos entre 20 e 60 anos que um dia sonharam em ser o Ronaldo, o Rivaldo, o Messi… Eu não. Nunca quis jogar nada, nem nas aulas de Educação Física. Eu gostava de ver, de falar sobre esporte de uma forma que mostrasse o quanto ele é hilariamente dramático e divertido.

Curiosamente, quando fomos entrevistar o Marco Bianchi (vocês sabem, um dos apresentadores do programa) para este blog, ele nos falou sobre como esse tipo de informação com humor havia se espalhado nas emissoras a ponto de deixar o “Rockgol” muito igual ao resto. 

‘Virou quase uma regra, não uma exceção’

“Não sei se lançamos essa tendência, porque eu não conheço a história da TV desde o começo, mas no momento em que isso estava meio abandonado, esse casamento de entretenimento com futebol, nós resgatamos isso. Tanto que, de um tempo pra cá, todos os programas começaram a ser, digamos, menos quadrados. Surgiram programas de rádio nessa linha humorística, programas de TV que sempre foram convencionais passaram a mudar, o ‘Globo Esporte’ tinha um formato X, passou a ter um formato diferente, isso influenciou muita gente. Virou quase uma regra, não uma exceção”.

‘Hoje, todos os programas são engraçadinhos’

“O jornalismo esportivo tem as suas características próprias, porque o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes, como dizem. Ele permite que você trate o assunto de uma forma mais descontraída. Quero continuar a trabalhar com futebol, mas hoje em dia, para fazer algo que se destaque, não basta ser como era o ‘Rockgol’, porque a distância entre o que era o ‘Rockgol’ e os outros programas diminuiu. Hoje, todos os programas são engraçadinhos. Para ser inovador, teria que ser mais humorístico, feito por humoristas. Não um programa de esportes com humor, mas o inverso”.



Bianchi fez Rádio a TV na USP no começo dos anos 90. Eu estudo (estudei? Estudava? Será difícil conjugar esse verbo no passado) bem pertinho dali, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Quando eu entrei na USP, sentia um certo medo de ser olhada com desprezo por ter o esporte como uma das coisas mais importantes da minha vida. Sei que política é relevante (como economia, cultura, cidadania) e tento como posso estar bem informada sobre tudo isso. Mas há gente por aí mais apaixonada por isso e capacitada para tratar desses assuntos.

Nos meninos da minha sala, eu encontrei um porto seguro para me convencer de que o jornalismo esportivo era um caminho válido e que eu poderia exercitar isso nos trabalhos da faculdade. Por isso, eu perguntei para o Bianchi como ele expressava sua paixão pelo futebol nos limites da ECA.

‘Nunca fomos especialistas’

“Sempre fomos muito ligados ao futebol. Sempre vimos o futebol não como uma fonte de estudo, nunca fomos especialistas, mas sempre interessados. Quando eu comecei a fazer o programa na Rádio USP [começo dos anos 90, Bianchi estudava na Universidade], um dos meus primeiros quadros foi o ‘Mesa Quadrada Futebol Moleque’, era uma sátira de um programa da TV Gazeta chamado ‘Mesa Redonda Futebol Debate’. Antes era apresentado pelo Roberto Avallone, que é um cara super folclórico”.



Referências: Avallone e Gérson

“A principal delas é o [Roberto] Avallone. Há uma série de coisas que ele fala, a cantina chique dos Jardins, as camisas que às vezes ele usava, umas coisas linguísticas dele. Ele fala muito bem o português. ‘Agora os comerciais, mas não vá sequer ao banheiro; ‘estou muito empolgado, exclamação’, ‘Palmeiras, 1,2,3,4, Corinthians zero’. E o melhor é que ele aparentemente se leva a sério, o que o deixa mais engraçado ainda. Ele se envolve de uma forma até doentia com o futebol. O Gérson, o canhotinha, ele falava ‘perfeito’, a voz que eu faço é inspirada nele. Os principais são o Avallone, pelo espírito de envolvimento, e o Gérson pela voz”.



Eu via o “Rockgol” ao vivo e também as reprises. Não imaginava fazer um dia o mesmo que eles (afinal, não sou uma pessoa naturalmente engraçada, pelo menos, não pessoalmente), mas pensava em falar para jovens e dos dois gêneros. O esporte hoje não está apenas em conversas de botecos. Ele está em todos os lugares. Para trazer o jovem e as mulheres para o jornalismo esportivo, não basta colocar uma gostosa como apresentadora. A chave é ligar o esporte a referências culturais e sociais com as quais as pessoas se identificam. Isso exige que os apresentadores estejam totalmente ligados não só em esporte, mas também em comportamento.

‘A descontração agregou mais os jovens’

“A MTV tem publico muito adolescente. A pessoa que tem 25 anos lembra da gente na rádio, mas quem tem 15 só conhece pelo ‘Rockgol’, acha que eu sou jornalista esportivo. Tem que ficar atento aos interesses do público, as músicas, o comportamento. Nas emissoras em geral, os programas de futebol têm um publico muito amplo, porque essa coisa da descontração agregou mais os jovens. O publico de futebol vai de A a Z. Frentistas me conhecem, o garçom fala comigo, gente de 15, 18 anos. Mas eu sou meio avesso a fazer as coisas pensando no público, pensei em fazer coisas naturais para mim, depois pensar onde se encaixa. Há amigos dos meus pais que gostam do meu trabalho, moleques de 15 anos. O futebol prende todos os públicos”.

‘Quatro ou cinco corintianos me agrediram’

“Uma vez eu fiz uma piada do Corinthians no ‘Rockgol’, era um corintiano que ligava ao vivo para o programa, ele falava algumas coisas, a gente tirava sarro. Eu fiz o texto e a voz. Fui numa festa, um cara veio tirar satisfação, parecia de torcida organizada. Eu não estava acostumado com aquilo, fui surpreendido, tentei argumentar, daí quatro ou cinco corintianos me agrediram. Eu tinha operado o joelho, torci de novo, tive que operar de novo. Enfim, me bateram, eu fui fazer BO na delegacia, o cara perguntou quem eram, eu não sabia, falaram que não adiantava, fiz o BO mesmo assim, mas passei por isso”.



‘Era um humor para todos os clubes’

“Eu poderia ter me intimidado, mas só fiquei um pouco mais atento para não dizer coisas que poderiam ser encaradas como ofensa. Ao mesmo tempo, eu fiquei mordido e fiz mais piadas com o Corinthians do que o normal, por uma certa mágoa com esse episódio. Mas foi passageiro, eu sempre mostrei no programa que a brincadeira era com os clubes que estavam mal. Quando Palmeiras estava mal, mas eu brincava mesmo assim, e eu sou palmeirense. Era um programa de humor que o assunto era futebol, os assuntos seriam explorados, não importa o time. Depois as pessoas começaram a entender o espírito do programa, que não perseguia time nenhum. Era um humor para todos os clubes. Pessoas de todos os times gostavam do mesmo jeito do programa”.

‘A fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo’

“Criávamos quadros, mudávamos os cenários, a disposição das pessoas no cenário, a duração, a abordagem dos comentários, sem mudar a essência, mas coisas que representassem renovação. Fazer um programa durante oito anos, ainda mais um humorístico, foi um feito. Mas a fórmula se esgotou, comigo e com o Paulo [Bonfá]. Era um casamento de estilos, para determinar algo, todo mundo tinha que gostar, era uma configuração que conciliava os interesses. O leque de possibilidades se esgotou. Agora eu pretendo fazer um programa diferente, comigo comandando a mesa, mais quadros de humor, indo mais adiante do que foi o ‘Rockgol’, para se diferenciar do resto. Todos os programas ficaram descontraídos, uns são engraçados, outros tentam ser engraçados. Hoje em dia, aquele jornalismo convencional, quadrado, antiquado, não é mais o mesmo”.



Eu fui ao “Rockgol” uma vez (na plateia, claro), no começo do ano passado. Foi legal, mas eu também senti que o espírito do programa tinha ido embora. Os entrevistados já sabiam mais ou menos o tom das perguntas e como desviar delas. Não havia mais surpresas, como o amendoim entrando no olho do Bianchi enquanto o Bonfá falava ou um “passar bem” que cortava um entrevistado no telefone. Eu senti que o formato com os dois estava acabando aos poucos.

‘Naquela configuração, não dava mais’

“Ele [Bonfá] tem um perfil de comunicador mais convencional, talvez mais versátil. Porque ele já trabalhou no programa da Adriane Galisteu, no TV Fama, agora está no Sportv. Eu sempre fiz humor, eu nunca fiz outra coisa. Sempre procurei enfatizar isso. O Bonfá não. Na rádio, eu fazia parte de criação. O Paulo também fazia vozes, mas ele ficava mais com a parte de administração do escritório, ele e o Felipe Xavier, de venda de patrocínios. No ‘Rockgol’ também. Eu meio que mordia e o Paulo assoprava. Ele sempre amenizava e eu lascando os convidados. Mas era um casamento bom, porque ele amenizava quando ficava um clima meio constrangedor. Ele tinha uma função mais burocrática, mais jornalística, perguntas mais comuns e eu sacaneava mais. Durante muitos anos, ele fez os contratos com a MTV, inclusive no meu nome. A gente tinha estilos diferentes, mas que combinavam. E pelo fato de se conhecer desde moleque, às vezes, ao vivo, eu sabia só de olhar para ele que ele tinha gostado de alguma coisa. A gente tinha um entrosamento muito bom, mas foi uma fórmula que se esgotou. Não fecho a porta para fazermos coisas juntos no futuro, mas, naquela configuração, não dava mais. Por isso, eu decidi que, se eu fizer coisas com futebol, vou fazer com meu projeto, para o meu perfil”.

Tento imaginar o tamanho do desafio que deve ser se desvincular da imagem de outra pessoa. É difícil pensar em praticamente reiniciar uma carreira, sendo que eu estou apenas no meu primeiro emprego, no qual a minha maior responsabilidade é o meu blog (que curiosamente tenta ser ‘engraçadinho’). O Bianchi podia com certeza se acomodar e fazer humor só com esportes para sempre, mas não.

“Minha carreira começou com humor multitemático, mas espero que eu consiga espaço de novo para fazer isso, paralelamente com algo com futebol. A internet é mais uma opção. As emissoras de TV abertas são poucas e limitadas, a internet está quase junto do cabo com faturamento e publicidade. Saí da MTV no ano passado, estou trabalhando mas sem ganhar, então tenho até o final do ano para fechar alguma coisa”, ele disse para nós duas. Ele produz o programa “Descontrole Remoto” e tem um projeto de uma atração de esporte, mas com ênfase total no humor, sem o compromisso de relatar informação o tempo todo.

Apesar de uma história tão rica na TV, ele falou de seus novos planos com a alegria de alguém que acabou de sair da ECA. Daqui a pouco, será a minha vez de dar adeus à USP. Sem a pretensão de ter uma carreira tão bem-sucedida quanto a dele, mas com a intenção de mostrar para as pessoas que o esporte é divertido… e de todos.

Questão de domingo

22 out

Por Marcela Lupoli

Ninguém precisou assistir Fantástico para saber que Zeca Camargo está tentando perder peso. A “Medida Certa” se tornou muito popular nas redes sociais, nas conversas de ponto de ônibus, nos programas de humor.

O sucesso desse quadro levou 53.940 pessoas, em 11 capitais, às ruas pra caminhar com os apresentadores do programa. O país acompanhou o passo a passo da dieta do Zeca e da Renata e torceu para que eles resistissem ao pudim e ao churrasco. Renata Ceribelli, aliás, teve que ter coragem para aceitar o desafio. Ela tinha medo de não conseguir e ficar conhecida como “a jornalista gorda”…

Você provavelmente não espera que o William Bonner e a Fátima Bernardes saiam as ruas em trajes esportivos de microfone na mão chamando a galera pra fazer um polichinelo (bom, talvez, depois do twitter, até espere… mas isso é assunto para outro post!). O que provavelmente você não sabe é que o casal JN já passou pelo dominical de variedades nos anos 90 e poderíamos muito bem assistir hoje um reality show com os trigêmeos após o Faustão.

Como bem observou Maurício Stycer em seu blog, o Fantástico está investindo nesse “jornalismo reality show” que coloca os profissionais como cobaias personagens de suas próprias reportagens. Se por um lado causa certa estranheza os ver no centro da produção, por outro, talvez essa experiência aproxime o público do profissional e demonstre que o jornalista não é simplesmente “os olhos da verdade”.

Jornalismo? Peraí, vai me falar que “Menina Fantástica” é jornalismo? Hum… Acho que não.

E aquela reportagem sobre o poder das milícias de 2008? Ah, essa sim!

Fato é que desde que foi criado, em 1973, o Fantástico tem uma liberdade de estilo que não encontramos em outros programas na televisão. Para se ter uma ideia, o programa já foi dirigido pelo Manoel Carlos (sim, aquele das novelas sobre o Leblon!) e apresentado por jornalistas do calibre de Cid Moreira até por celebridades como Carolina Ferraz.

O que raios, então, é o Fantástico? O programa se define como uma revista semanal eletrônica. Assim, ele busca ter notícias de última hora, grandes reportagens, series, perfis com celebridades, esportes… Junte tudo isso, coloque em quase três horas de duração e tente manter o ritmo.

Com essa mistura, muitas vezes sentimos que o programa não tem uma hierarquia de notícias como esperamos em um jornalístico. Séries, reportagens e notícias se misturam no fundo azul e a Patrícia Poeta que faça caras, bocas e vozes para tentar encaixar o próximo assunto sem que pareça ter vindo absolutamente do nada. Isso fica bem visível no site:

É no mínimo estranho que “Tande e Lizandra contam como se conheceram no Faustão” divida o destaque com “Transporte alternativo é principal fonte de renda de milícias”.

Talvez por esse caráter de experimentação que faz parte do programa desde sua estreia, falte no Fantástico uma linha editoral, uma maior comunicação entre as reportagens, os programas de ficção e os quadros fixos. Muitas vezes temos a sensação de que o programa se perde e nos perdemos juntos, nunca sabendo o que esperar. Abrir com a Gisele Bündchen ou com o FB do Morro do Alemão é uma questão de domingo.

Liberou geral no jornalismo esportivo

12 out

por Sheila Vieira

Como você classificaria o jornalismo esportivo brasileiro atualmente? Muito brincalhão, sério, bom, péssimo? Essa é uma pergunta difícil de se responder em um momento em que toda a crônica esportiva parece estar, ao mesmo tempo, experimentando, acertando, errando e, principalmente, servindo como um espaço de testes para as outras áreas da imprensa. 

De editoria rejeitada e diminuída, o esporte virou o espaço mais “descolado” do jornalismo. Quem foi o primeiro a fazer piadas durante um VT na Rede Globo? O Tadeu Schmidt no “Fantástico” ou, se você quiser ir um pouco mais para trás, o Régis Rosing na reportagem. Hoje, o “show da vida” é totalmente influenciado pelas brincadeiras e informalidades que o irmão de Oscar trouxe. E, certamente, Tiago Leifert não teria o OK da emissora para o seu formato de “Globo Esporte” se a ‘experiência Tadeu’ não tivesse dado certo. 

O ponto é que o esporte, talvez por causa do preconceito sofrido por tanto tempo dentro das redações, usou como resposta uma maior liberdade de linguagem. Não havia medo de exagerar ou de deixar um pouco da paixão de torcedor ou do ufanismo fazer parte do jornalismo, porque não se tratava de uma área “séria”. 

Bem, isso mudou bastante. As primeiras marcas da crônica esportiva foram os textos dramáticos de Nelson Rodrigues e Mário Filho, as narrações emocionantes do rádio e a exaltação dos atletas e times nacionais. No entanto, uma das figuras mais importantes do jornalismo esportivo atual representa o oposto de tudo isso. 

Estou falando de Paulo Vinícius Coelho, o PVC da ESPN Brasil. Conhecido como “o homem dos números e de uma memória incrível”, esse jornalista inspirou um grande número de telespectadores (incluindo a autora deste texto) ao desejo de trabalhar com esportes. Mais do que isso, de vê-lo sendo tratado como algo sério, quase científico, relevante e que fosse um ótimo objeto de reflexão. Ele levou o jornalismo esportivo a um novo patamar de excelência. 

Curiosamente, PVC fala em um dos seus livros (‘Jornalismo Esportivo’, Editora Contexto, 2003) que estava faltando uma certa ousadia dos seus colegas para falar de esporte: 

“Análise tática sobre jogo de futebol vai sempre valer relatos dignos de fazer o torcedor mais fanático se arrepiar tanto quanto a descrição perfeita da partida de futebol. A conquista do título, a jogada brilhante, a história comovente sempre fizeram parte do esporte. E sempre mereceram o tom épico que desapareceu das páginas dos jornais e revistas e dos relatos de emissoras de rádio e de televisão”.

Ele disse isso logo após falar sobre Mário Filho e Rodrigues e defender a presença de um tom literário no jornalismo esportivo que ele via desaparecendo. Mal sabia PVC que os próximos anos seriam cheios de criatividade, exagerada ou não, mais para o lado do humor do que da Literatura. 

Nomes como Paulo Bonfá, Marco Bianchi, Tadeu Schmidt, Tiago Leifert e Milton Neves trouxeram (de maneiras bem distintas) muita irreverência para o jornalismo esportivo. Os dois humoristas ex-MTV, por exemplo, criaram no “Rockgol” uma sátira para homenagear e criticar o que se via na TV, nos jornais e no rádio. 

A internet, com seu ambiente mais democrático e efêmero, embarcou nessa tendência e fez com que ela se expandisse ainda mais. Os grandes portais de notícias contam com 24 horas de ‘circulação’, ao invés de 30 minutos espremidos numa grade de programação. Portanto, podem ter um espaço para notícias mais sérias e fazer um blog só com curiosidades. O UOL, por exemplo, tem vários deles, como o “UOL Esporte Vê TV”, em que o assunto não é o esporte em si, mas como é feita a cobertura sobre ele. Os personagens não são os atletas, mas os jornalistas. 

As diferenças entre todas essas investidas, o sucesso de cada uma delas e a recepção do público ficam para os próximos posts. Por enquanto, quero saber como vocês avaliam o jornalismo esportivo atual. Para isso, usem a enquete, os comentários e soltem o verbo!

A resistência

12 out

Por Marcela Lupoli

Revolução! Esse título é uma piada. A palavra “revolução” poucas vezes é usada adequadamente e nesse blog, definitivamente, não é o caso. Estamos falando aqui das inúmeras mudanças que a comunicação (e toda sociedade) presenciou e fez parte desde a Revolução Tecnológica nos longínquos anos 60!

Se houve alguma revolução, o jornalismo não é o melhor meio para ilustrarmos essa quebra de padrões, esse rompimento com o tradicional. Nos jornais, nas emissoras de televisão, nas revistas tudo é ainda muito semelhante ao que era feito há 40 anos. Não usamos mais a máquina de escrever, a imagem é “high definition”; mas o lide e a escaleta continuam soberanos.

Muitos ainda sentem prazer em sujar os dedos com o jornal que chega na porta de casa no domingo (como a autora que vos fala), muitos ainda se emocionam com a voz solene que narra os acontecimentos da semana e há aqueles que chegam a dar boa noite para o moço da televisão. Mas admitamos, não é a maioria.

Quem tem vinte e poucos anos agora já cresceu em um mundo onde o espaço se tornou mais subjetivo: televisão a cabo, celular, internet. Crescemos com os meios de comunicação se modificando e incorporamos essa sensação de que tudo ainda vai se transformar, de que não adianta esperarmos algo para daqui cinco anos, porque , com certeza, seremos surpreendidos.

Bom, imagine quem nasceu no meio dos anos 90. Imagine que essas pessoas não conhecem um mundo desconectado, um mundo que não possibilite organizar seus interesses da forma que mais lhes agrada. São pessoas que enquanto leem um livro sentem falta de dar ctrl F para encontrar o trecho desejado. É uma geração que cresceu podendo editar suas próprias imagens, fazer seus próprios vídeos, postar, compartilhar.

É claro que a comunicação com essas pessoas não pode se dar da mesma forma que era realizada em outras décadas. Parece lógico, mas mesmo assim há uma enorme resistência do jornalismo “tradicional” em mudar essa realidade. Isso se torna ainda mais polêmico quando a palavra entretenimento entra em jogo. Há diversos fatores históricos que serão discutos na página “home” e que explicam, parcialmente, alguns dos motivos que fazem com que o jornalismo tenha verdadeiro pânico de entreter.

Contudo, a mudança é inevitável. Estamos bem longe de uma revolução, mas já existem alguns jornalistas de pé por aí tentando inventar alguma coisa nova. Nos próximos posts vamos analisar algumas dessas tentativas de modernização do jornalismo. E vocês vão nos ajudar a pensar o jornalismo do futuro. O que está dando certo, o que está dando errado? Vamos descobrir isso juntos!

Quem tem medo do entretenimento?

10 out

por Marcela Lupoli e Sheila Vieira

Jornalismo e entretenimento. Para muitos seria uma heresia colocar os dois no mesmo período, mas por quê? O que leva as pessoas a acreditarem que o jornalismo estaria imune a uma sociedade que incorpora o entretenimento nos mais diferentes aspectos da vida cotidiana?

Nesse post, vamos analisar alguns aspectos históricos que acreditamos terem contribuído para essa visão que acredita que jornalismo não deve entreter: 

Quer divertir os outros? Vire artista
Houve um tempo em que os jornais publicavam ficção, como os folhetins do José de Alencar que os vestibulandos leem no formato de livro. Atualmente, o texto mais “literário” num jornal de grande circulação talvez seja a coluna de humor do José Simão, na Folha de S. Paulo. Isso tem a ver com uma clara opção histórica do jornalismo de remover qualquer tipo de lirismo de sua escrita. O formato engessado se perpetua nas escolas de Comunicação e inibe o que foge do padrão, seja ele bom ou ruim. 

Nossos amigos de Frankfurt
Se você é um estudante de comunicação, certamente já estudou (ou deveria ter estudado!) os pensadores da Escola de Frankfurt. Se não é do ramo, nós explicamos! Certamente todos vocês já ouviram falar de “Indústria Cultural” em algum momento. Essa expressão apareceu pela primeira vez na obra “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para os pensadores, essa indústria promoveu uma união entre arte superior e inferior que gerou prejuízo de ambas. A superior perde sua seriedade e a inferior sua “indomável força de oposição”. Essa indústria que tudo homogeiniza, para Adorno, trata o consumidor como seu objeto, não como seu soberano. É importante salientar que esses pensadores viram de perto regimes totalitários, como o nazista, usarem o que chamavam de Indústria Cultural, com sucesso, para sustentar seus governos tiranos. 

Debord e seu espetáculo
Se os pensadores de Frankfurt enxergavam na comunicação de massa uma forma de imposição de pensamento e manutenção de governos liberais, Guy Debord foi além com sua “Sociedade do Espetáculo”. Em sua popular obra de 1967, o francês argumenta que esse espetáculo a que se refere vai além da dominação cultural de massa. A degradação da vida da sociedade pós-guerra faz com que as pessoas busquem no espetáculo o que lhes falta na realidade do cotidiano, assim passam a consumir imagens.

Em 1988 (em seus “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo”), Debord afirma que não só acertou em todas suas análises como acredita que a situação tornou-se ainda mais forte após esses vinte anos. Para ele, vivemos um tipo de “espetáculo integrado”que modelou a sociedade na sua própria imagem de tal forma que não enxergamos alternativas a ele. O pensador acredita que esse poder é muito mais forte do que o totalitarismo, já que vem “maquiado de democracia”. 

Porém, como sabemos, o mundo mudou UM POUQUINHO desde então: 

O meio é a mensagem
Outro autor carimbado em qualquer faculdade de Comunicação, o canadense Marshall McLuhan tinha uma visão um pouco mais simpática em relação aos meios de comunicação. Na verdade, eles os via como uma extensão do ser humano, ao invés de algo que ele consumia. Em sua série de previsões, entre as quais a “aldeia global” (ou o que se chama hoje de sociedade em rede), McLuhan defendia que as sensações proporcionadas pela tecnologia eram mais importantes do que o conteúdo que elas transmitiam.

As pessoas veem TV, filmes e acessam computadores para fazer parte dessa ‘mágica’ e isso dificulta o pensamento linear e exigente de concentração dos livros, por exemplo. Nossos cérebros estão programados para ver o mundo de forma híbrida, não-linear e fragmentada. E a mídia é mais uma experiência sensória do que um mero canal de transmissão de mensagens. Dessa forma, os meios de comunicação deixam de ser entendidos como agentes de manipulação do governo para serem aceitos como uma evolução natural da sociedade. 

Os jornalistas perderam os super-poderes
A internet conseguiu concorrer com a imprensa escrita, a TV e o rádio ao mesmo tempo, fazendo com que todas as mídias anteriores repensassem seu métodos. Porém, o maior baque foi o poder que o internauta passou a ter de encontrar informação por contra própria. Seja pelo Google, pela Wikipédia, pelos fóruns ou pelas redes sociais, as pessoas às vezes chegam a um dado no mesmo tempo que os jornalistas. Em alguns casos, quanto mais se sabe do procedimento de apuração, checagem e edição, menos o público confia naquele veículo.

Isso tira dos repórteres a aura de desbravadores da verdade e mediadores soberanos da realidade. Os jornalistas nunca foram tão questionados como agora. Por isso, é fundamental que a imprensa aprenda a apresentar conteúdo de forma atrativa, acolhedora e criativa, ao invés de vomitar números, declarações e dados oficiais como se fosse o único canal capaz de fazê-lo.

Porém, mesmo a duras penas, o jornalismo está mostrando alguns sinais de renovação. Em duas seções deste blog, vamos entrar em detalhes sobre as experiências que a imprensa vem fazendo, aceitando o entretenimento e aprendendo a dosar a função de informar e agradar o público. Confira os posts:

A resistência

Liberou geral no Jornalismo Esportivo

Questão de domingo

O Pan na Record: ótimo, só que ao contrário

Porque se formar é deixar as certezas para trás

Manchete diferente, mesmo jornalismo