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Humor politicamente equilibrado

4 nov

por Marcela Lupoli

As pataquadas do senhor-mais-influente-do-mundo-no-twitter (Mister Rafinha Bastos) fez com que surgissem verdadeiras editorias nos grandes portais da internet a fim de se discutir os limites do humor (e cifras para os processos de Bastos). Com a febre do stand up comedy no Brasil e sua incorporação pelas emissoras abertas de televisão, as piadas se dividem entre instrumento de crítica e instrumento de polêmica.

Neste post, vai nos interessar a inserção do humor no jornalismo. O próprio Rafinha é jornalista, formado pela PUC-RS e alcançou a fama (inter)nacional através do CQC, programa da Rede Bandeirantes que aborda pautas jornalísticas através do humor. O programa de Marcelo Tas fez sucesso desde sua estreia e já está no ar há quatro anos. O prestígio de Marcelo e o talento de seus integrantes, principalmente nas matérias políticas, fizeram do “Custe o que Custar” queridinho do público e da comunidade artística até as polêmicas recentes.

Apesar de inovador em sua época e contexto, o programa não foi pioneiro na união de jornalismo e humor apostando em críticas ácidas e entrevistas inusitadas. O próprio Tas já fazia isso nos anos 80 no programa “Olho Mágico” em que ele, Ernesto Varela, e seu câmera Waldeci (Fernando Meirelles!!!) faziam uma dupla de jornalistas ingênuos e sinceros a demasia que arrancavam declarações antológicas dos entrevistados.

Voltando ainda mais no tempo, agora no impresso. Lá pelos idos dos anos 50 e 60 os cronistas, cartunistas e chargistas passam a ter mais destaque e sucesso. Millôr Fernandes, Ziraldo e Jaguar começam a ser conhecidos nessa época e passam a inspirar gerações que matém vivos os espíritos dos cartuns ainda hoje na imprensa.

A crítica irônica e ácida também está longe der uma novidade nos meios de comunicação. Jabor, Veríssimo, Francis, para pensamor em nomes de articulistas famosos por suas opiniões polêmicas em suas crônicas bem construídas. Todos eles beberam da fonte Nelson Rodrigues, o dramaturgo jornalista apaixonado por futebol.

E falando sobre Nelson Rodrigues que esse post se relaciona com o entrevistado do blog, o humorista Marco Bianchi. Quando perguntamos a ele sobre ser inovador no tratamento do esporte com humor, ele não se sentiu a vontade com o título de pioneiro e logo citou Rodrigues como alguém que inspirou todos os que tentam falar de esporte de uma forma diferente.

Além do escritor, Bianchi discorreu sobre várias outras influências. “Sou fã de Charles Chaplin, revi Luzes da Cidade e é genial, é a grande referencia para qualquer humorista. Woody Allen, Asterix, Monty Python, Kino, irmãos Caruso, Simpsons, Futurama, Jô Soares, Chico Anysio (referências pra minha geração). Os Trapalhões! Eles hoje seriam detonados, imagina, tinha um negão manguaceiro, um careca gay e um cearense de cabeça chata. Seriam super criticados, mesmo como o Chaplin, que chutava a bunda de alguém e pagava o dinheiro do ricaço”.

Apesar de não repudiar a “piada pela piada”, Bianchi conta que uma preocupação constante em sua carreira é usar o humor como uma forma de crítica. Ele acredita que o humor pode conscientizar e atingir um público maior do que se simplesmente desse sua opinião como um especialista. “Eu brincava com os merchandising (que era uma confusão entre jornalismo e comercial), eu falava do calendário da seleção, falava que era para fazer campeonatos municipais. Daí fazia municipais num semestre, estaduais no outro, e nos cinco semestre restantes os outros torneios. (risos) Muitas vezes eu brincava com isso, fazia o Fofo Ricácio Peixeira, dono da CBD, era a sigla antiga, para mostrar que eles tão parados no tempo. Uma brincadeira com a crítica embutida, é esse que eu acho o humor mais completo. É mais inteligente, mais rico, mais profundo. Isso que faz o humor uma forma de crítica útil”.

E o assunto, claro, chegou aos limites do humor. Marco responde sem titubear. Para ele, existe uma onda do politicamente correto muitas vezes agressiva, principalmente nas redes sociais. “É complicado, as vezes eu faço piada e recebo respostas agressivas, a ignorância das pessoas é um entrave para o humor, você é mal interpretado. Isso (o politicamente correto) chegou a um extremo que você deve descrever o Saci Pererê como afro-descendente portador de necessidades especiais. Então existe essa hipocrisia, as pessoas tem que aceitar a crítica. As vezes a brincadeira é pela brincadeira.”.

Entretanto, Marco acredita que é possível haver um equilíbrio entre esse politicamente correto excessivo e a nova moda do politicamente incorreto. “Eu não tomo partido do Rafinha Bastos, por exemplo, porque acho que ele faz mais marketing em cima do politicamente incorreto. Ele se colocou como o defensor dos desbocados, o porta bandeiras dos politicamente incorretos. Então, as vezes, as piadas perdem um pouco da naturalidade.A piada atende a essa necessidade de perfil, mas não tem graça ou é uma piada de mau gosto, como essa da Wanessa Camargo. Não acho que seja o caso de processar. Não acho que seja um drama, se fosse comigo eu não iria querer processar. Mas isso é marketing, eu não gosto disso. Os dois extremos me desagradam. O legal é fazer humor que seja construtivo, ser arrojado sem ter mau gosto, o equilíbrio. Não me identifico com as pessoas que acreditam que qualquer brincadeira é discriminação e nem com o Rafinha e os extremos opostos”.