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O humor e o jornalismo, por Marco Bianchi

4 nov

É impossível falar sobre entretenimento sem falar de humor. De forma estratégica, natural ou polêmica, fazer rir tornou-se quase uma obrigação entre os veículos de comunicação. Musa do jornalismo esportivo, a piada já se infiltra até em jornais “elegantes”, como o Jornal Hoje. Quando bem utilizado, o humor é capaz de fazer uma abordagem não só mais agradável de determinado tema, mas também de realizar críticas mais profundas e de maior impacto entre os espectadores.

Contudo, não falta exemplos de programas mal feitos, humoristas e jornalistas perdidos e tiradas sem graça. Mas não desistimos de provar que é possível fazer um jornalismo critavo, inovador e, também, bem humorado. Assim, saímos em busca de alguém que nos explicasse como é esse humor que funciona. Comece ler nossa matéria aqui:

“Ficou esse rótulo na minha cabeça”. Um humorista que trabalhou desde o início com vários tipos de assuntos, mas ficou conhecido nacionalmente através de um programa de esportes. Marco Bianchi, 39, está tentando voltar às origens após sair da MTV, onde apresentou o ‘Rockgol’ ao lado de Paulo Bonfá por oito anos (contando o campeonato, 15).

Em conversa com as (prestes a serem ex-ecanas, como ele) autoras deste blog, Bianchi tem dois projetos em andamento: um sobre esporte, mas com uma abordagem diferente do ‘Rockgol’, e uma sátira a formatos de televisão chamada “Descontrole Remoto”.

Se os grandes astros da atual MTV são comediantes como Dani Calabresa, isso tem muito a ver com o ‘Rockgol’. O programa fez parte de uma renovação do canal no fim dos anos 90, buscando formatos diferentes do clássico VJ + videoclipe + matérias da MTV americana. O canal foi deixando de ser exclusivamente musical para abraçar todo o entretenimento, incluindo o futebol. Quando lançou o campeonato entre músicos em 1996, a MTV buscou um grupo de radialistas para fazer uma narração nada convencional.

O grupo era formado por Bianchi, Felipe Xavier e Paulo Bonfá, que se conheceram ainda crianças. O nosso entrevistado fez Rádio e TV na USP e se reuniu no começo dos anos 90 com os amigos na 89 FM para fazer o “Sobrinhos do Ataíde” (lembra do Xiiii Marquinho?). Um dos quadros da atração era o “Mesa Quadrada Futebol Moleque”, uma sátira do “Mesa Redonda Futebol Debate”, que era apresentado por Roberto Avallone na TV Gazeta.

“Esse quadro fazia sucesso, ele falava “primeiro bloco, Palmeiras”, “segundo bloco, mais Palmeiras”, “terceiro bloco, só Palmeiras”, quarto bloco “Corintia, São Paulo, seleção brasileira, meninos do vôlei, gêmeos do Pelé, caso Edmundo e mais uma pitadinha de Palmeiras”, lembra Bianchi.

Trabalhando na TV, os três humoristas tiveram que aprender uma nova linguagem, mas já tinham seus papéis definidos. “Eu e o Paulo nunca tínhamos feito narração de jogo de futebol, muito menos o Felipe Xavier. Mesmo com inexperiência, deu certo, por causa da facilidade que a gente tinha com futebol e pelos personagens. O Paulo representa mais a própria personalidade, ele não encarna personagem. Ele é ele mesmo com mais besteirol. Agora eu já inventava voz, falava que eu era formado na Foderj em jornalismo esportivo e começava a inventar coisas”.

Após uma breve passagem pela Band, eles retornaram à MTV para fazer uma mesa redonda semanal. Inspirado nos antigos programas esportivos, o ‘Rockgol’ e sua veia bem-humorada acabaram lançando uma nova maneira de falar sobre esporte, mais ligada aos jovens, ao comportamento e ao entretenimento. Oito anos depois, com todos os diários esportivos tentando ser ‘engraçadinhos’, vale a pena resgatar a história de Bianchi e do programa.

A entrevista está dividida em duas partes que nos ajuda a aprofundar a questão do humor em nossos posts. Na seção “Revolução”, você saberá como Bianchi vê o humor e sua opinião sobre polêmicas atuais, como o caso Rafinha Bastos. Em “Na Esportiva”, a sua receita para falar do esporte de forma engraçada, crítica, uma agressão que sofreu por uma piada e a razão pela qual o formato do ‘Rockgol’ se esgotou. Boa leitura:

Humor politicamente equilibrado: sobre os limites dos comediantes

Maravilha, Alberto: o ‘Rockgol’ e o jornalismo ‘engraçadinho’

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Quem tem medo do entretenimento?

10 out

por Marcela Lupoli e Sheila Vieira

Jornalismo e entretenimento. Para muitos seria uma heresia colocar os dois no mesmo período, mas por quê? O que leva as pessoas a acreditarem que o jornalismo estaria imune a uma sociedade que incorpora o entretenimento nos mais diferentes aspectos da vida cotidiana?

Nesse post, vamos analisar alguns aspectos históricos que acreditamos terem contribuído para essa visão que acredita que jornalismo não deve entreter: 

Quer divertir os outros? Vire artista
Houve um tempo em que os jornais publicavam ficção, como os folhetins do José de Alencar que os vestibulandos leem no formato de livro. Atualmente, o texto mais “literário” num jornal de grande circulação talvez seja a coluna de humor do José Simão, na Folha de S. Paulo. Isso tem a ver com uma clara opção histórica do jornalismo de remover qualquer tipo de lirismo de sua escrita. O formato engessado se perpetua nas escolas de Comunicação e inibe o que foge do padrão, seja ele bom ou ruim. 

Nossos amigos de Frankfurt
Se você é um estudante de comunicação, certamente já estudou (ou deveria ter estudado!) os pensadores da Escola de Frankfurt. Se não é do ramo, nós explicamos! Certamente todos vocês já ouviram falar de “Indústria Cultural” em algum momento. Essa expressão apareceu pela primeira vez na obra “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para os pensadores, essa indústria promoveu uma união entre arte superior e inferior que gerou prejuízo de ambas. A superior perde sua seriedade e a inferior sua “indomável força de oposição”. Essa indústria que tudo homogeiniza, para Adorno, trata o consumidor como seu objeto, não como seu soberano. É importante salientar que esses pensadores viram de perto regimes totalitários, como o nazista, usarem o que chamavam de Indústria Cultural, com sucesso, para sustentar seus governos tiranos. 

Debord e seu espetáculo
Se os pensadores de Frankfurt enxergavam na comunicação de massa uma forma de imposição de pensamento e manutenção de governos liberais, Guy Debord foi além com sua “Sociedade do Espetáculo”. Em sua popular obra de 1967, o francês argumenta que esse espetáculo a que se refere vai além da dominação cultural de massa. A degradação da vida da sociedade pós-guerra faz com que as pessoas busquem no espetáculo o que lhes falta na realidade do cotidiano, assim passam a consumir imagens.

Em 1988 (em seus “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo”), Debord afirma que não só acertou em todas suas análises como acredita que a situação tornou-se ainda mais forte após esses vinte anos. Para ele, vivemos um tipo de “espetáculo integrado”que modelou a sociedade na sua própria imagem de tal forma que não enxergamos alternativas a ele. O pensador acredita que esse poder é muito mais forte do que o totalitarismo, já que vem “maquiado de democracia”. 

Porém, como sabemos, o mundo mudou UM POUQUINHO desde então: 

O meio é a mensagem
Outro autor carimbado em qualquer faculdade de Comunicação, o canadense Marshall McLuhan tinha uma visão um pouco mais simpática em relação aos meios de comunicação. Na verdade, eles os via como uma extensão do ser humano, ao invés de algo que ele consumia. Em sua série de previsões, entre as quais a “aldeia global” (ou o que se chama hoje de sociedade em rede), McLuhan defendia que as sensações proporcionadas pela tecnologia eram mais importantes do que o conteúdo que elas transmitiam.

As pessoas veem TV, filmes e acessam computadores para fazer parte dessa ‘mágica’ e isso dificulta o pensamento linear e exigente de concentração dos livros, por exemplo. Nossos cérebros estão programados para ver o mundo de forma híbrida, não-linear e fragmentada. E a mídia é mais uma experiência sensória do que um mero canal de transmissão de mensagens. Dessa forma, os meios de comunicação deixam de ser entendidos como agentes de manipulação do governo para serem aceitos como uma evolução natural da sociedade. 

Os jornalistas perderam os super-poderes
A internet conseguiu concorrer com a imprensa escrita, a TV e o rádio ao mesmo tempo, fazendo com que todas as mídias anteriores repensassem seu métodos. Porém, o maior baque foi o poder que o internauta passou a ter de encontrar informação por contra própria. Seja pelo Google, pela Wikipédia, pelos fóruns ou pelas redes sociais, as pessoas às vezes chegam a um dado no mesmo tempo que os jornalistas. Em alguns casos, quanto mais se sabe do procedimento de apuração, checagem e edição, menos o público confia naquele veículo.

Isso tira dos repórteres a aura de desbravadores da verdade e mediadores soberanos da realidade. Os jornalistas nunca foram tão questionados como agora. Por isso, é fundamental que a imprensa aprenda a apresentar conteúdo de forma atrativa, acolhedora e criativa, ao invés de vomitar números, declarações e dados oficiais como se fosse o único canal capaz de fazê-lo.

Porém, mesmo a duras penas, o jornalismo está mostrando alguns sinais de renovação. Em duas seções deste blog, vamos entrar em detalhes sobre as experiências que a imprensa vem fazendo, aceitando o entretenimento e aprendendo a dosar a função de informar e agradar o público. Confira os posts:

A resistência

Liberou geral no Jornalismo Esportivo

Questão de domingo

O Pan na Record: ótimo, só que ao contrário

Porque se formar é deixar as certezas para trás

Manchete diferente, mesmo jornalismo