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O humor e o jornalismo, por Marco Bianchi

4 nov

É impossível falar sobre entretenimento sem falar de humor. De forma estratégica, natural ou polêmica, fazer rir tornou-se quase uma obrigação entre os veículos de comunicação. Musa do jornalismo esportivo, a piada já se infiltra até em jornais “elegantes”, como o Jornal Hoje. Quando bem utilizado, o humor é capaz de fazer uma abordagem não só mais agradável de determinado tema, mas também de realizar críticas mais profundas e de maior impacto entre os espectadores.

Contudo, não falta exemplos de programas mal feitos, humoristas e jornalistas perdidos e tiradas sem graça. Mas não desistimos de provar que é possível fazer um jornalismo critavo, inovador e, também, bem humorado. Assim, saímos em busca de alguém que nos explicasse como é esse humor que funciona. Comece ler nossa matéria aqui:

“Ficou esse rótulo na minha cabeça”. Um humorista que trabalhou desde o início com vários tipos de assuntos, mas ficou conhecido nacionalmente através de um programa de esportes. Marco Bianchi, 39, está tentando voltar às origens após sair da MTV, onde apresentou o ‘Rockgol’ ao lado de Paulo Bonfá por oito anos (contando o campeonato, 15).

Em conversa com as (prestes a serem ex-ecanas, como ele) autoras deste blog, Bianchi tem dois projetos em andamento: um sobre esporte, mas com uma abordagem diferente do ‘Rockgol’, e uma sátira a formatos de televisão chamada “Descontrole Remoto”.

Se os grandes astros da atual MTV são comediantes como Dani Calabresa, isso tem muito a ver com o ‘Rockgol’. O programa fez parte de uma renovação do canal no fim dos anos 90, buscando formatos diferentes do clássico VJ + videoclipe + matérias da MTV americana. O canal foi deixando de ser exclusivamente musical para abraçar todo o entretenimento, incluindo o futebol. Quando lançou o campeonato entre músicos em 1996, a MTV buscou um grupo de radialistas para fazer uma narração nada convencional.

O grupo era formado por Bianchi, Felipe Xavier e Paulo Bonfá, que se conheceram ainda crianças. O nosso entrevistado fez Rádio e TV na USP e se reuniu no começo dos anos 90 com os amigos na 89 FM para fazer o “Sobrinhos do Ataíde” (lembra do Xiiii Marquinho?). Um dos quadros da atração era o “Mesa Quadrada Futebol Moleque”, uma sátira do “Mesa Redonda Futebol Debate”, que era apresentado por Roberto Avallone na TV Gazeta.

“Esse quadro fazia sucesso, ele falava “primeiro bloco, Palmeiras”, “segundo bloco, mais Palmeiras”, “terceiro bloco, só Palmeiras”, quarto bloco “Corintia, São Paulo, seleção brasileira, meninos do vôlei, gêmeos do Pelé, caso Edmundo e mais uma pitadinha de Palmeiras”, lembra Bianchi.

Trabalhando na TV, os três humoristas tiveram que aprender uma nova linguagem, mas já tinham seus papéis definidos. “Eu e o Paulo nunca tínhamos feito narração de jogo de futebol, muito menos o Felipe Xavier. Mesmo com inexperiência, deu certo, por causa da facilidade que a gente tinha com futebol e pelos personagens. O Paulo representa mais a própria personalidade, ele não encarna personagem. Ele é ele mesmo com mais besteirol. Agora eu já inventava voz, falava que eu era formado na Foderj em jornalismo esportivo e começava a inventar coisas”.

Após uma breve passagem pela Band, eles retornaram à MTV para fazer uma mesa redonda semanal. Inspirado nos antigos programas esportivos, o ‘Rockgol’ e sua veia bem-humorada acabaram lançando uma nova maneira de falar sobre esporte, mais ligada aos jovens, ao comportamento e ao entretenimento. Oito anos depois, com todos os diários esportivos tentando ser ‘engraçadinhos’, vale a pena resgatar a história de Bianchi e do programa.

A entrevista está dividida em duas partes que nos ajuda a aprofundar a questão do humor em nossos posts. Na seção “Revolução”, você saberá como Bianchi vê o humor e sua opinião sobre polêmicas atuais, como o caso Rafinha Bastos. Em “Na Esportiva”, a sua receita para falar do esporte de forma engraçada, crítica, uma agressão que sofreu por uma piada e a razão pela qual o formato do ‘Rockgol’ se esgotou. Boa leitura:

Humor politicamente equilibrado: sobre os limites dos comediantes

Maravilha, Alberto: o ‘Rockgol’ e o jornalismo ‘engraçadinho’

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Humor politicamente equilibrado

4 nov

por Marcela Lupoli

As pataquadas do senhor-mais-influente-do-mundo-no-twitter (Mister Rafinha Bastos) fez com que surgissem verdadeiras editorias nos grandes portais da internet a fim de se discutir os limites do humor (e cifras para os processos de Bastos). Com a febre do stand up comedy no Brasil e sua incorporação pelas emissoras abertas de televisão, as piadas se dividem entre instrumento de crítica e instrumento de polêmica.

Neste post, vai nos interessar a inserção do humor no jornalismo. O próprio Rafinha é jornalista, formado pela PUC-RS e alcançou a fama (inter)nacional através do CQC, programa da Rede Bandeirantes que aborda pautas jornalísticas através do humor. O programa de Marcelo Tas fez sucesso desde sua estreia e já está no ar há quatro anos. O prestígio de Marcelo e o talento de seus integrantes, principalmente nas matérias políticas, fizeram do “Custe o que Custar” queridinho do público e da comunidade artística até as polêmicas recentes.

Apesar de inovador em sua época e contexto, o programa não foi pioneiro na união de jornalismo e humor apostando em críticas ácidas e entrevistas inusitadas. O próprio Tas já fazia isso nos anos 80 no programa “Olho Mágico” em que ele, Ernesto Varela, e seu câmera Waldeci (Fernando Meirelles!!!) faziam uma dupla de jornalistas ingênuos e sinceros a demasia que arrancavam declarações antológicas dos entrevistados.

Voltando ainda mais no tempo, agora no impresso. Lá pelos idos dos anos 50 e 60 os cronistas, cartunistas e chargistas passam a ter mais destaque e sucesso. Millôr Fernandes, Ziraldo e Jaguar começam a ser conhecidos nessa época e passam a inspirar gerações que matém vivos os espíritos dos cartuns ainda hoje na imprensa.

A crítica irônica e ácida também está longe der uma novidade nos meios de comunicação. Jabor, Veríssimo, Francis, para pensamor em nomes de articulistas famosos por suas opiniões polêmicas em suas crônicas bem construídas. Todos eles beberam da fonte Nelson Rodrigues, o dramaturgo jornalista apaixonado por futebol.

E falando sobre Nelson Rodrigues que esse post se relaciona com o entrevistado do blog, o humorista Marco Bianchi. Quando perguntamos a ele sobre ser inovador no tratamento do esporte com humor, ele não se sentiu a vontade com o título de pioneiro e logo citou Rodrigues como alguém que inspirou todos os que tentam falar de esporte de uma forma diferente.

Além do escritor, Bianchi discorreu sobre várias outras influências. “Sou fã de Charles Chaplin, revi Luzes da Cidade e é genial, é a grande referencia para qualquer humorista. Woody Allen, Asterix, Monty Python, Kino, irmãos Caruso, Simpsons, Futurama, Jô Soares, Chico Anysio (referências pra minha geração). Os Trapalhões! Eles hoje seriam detonados, imagina, tinha um negão manguaceiro, um careca gay e um cearense de cabeça chata. Seriam super criticados, mesmo como o Chaplin, que chutava a bunda de alguém e pagava o dinheiro do ricaço”.

Apesar de não repudiar a “piada pela piada”, Bianchi conta que uma preocupação constante em sua carreira é usar o humor como uma forma de crítica. Ele acredita que o humor pode conscientizar e atingir um público maior do que se simplesmente desse sua opinião como um especialista. “Eu brincava com os merchandising (que era uma confusão entre jornalismo e comercial), eu falava do calendário da seleção, falava que era para fazer campeonatos municipais. Daí fazia municipais num semestre, estaduais no outro, e nos cinco semestre restantes os outros torneios. (risos) Muitas vezes eu brincava com isso, fazia o Fofo Ricácio Peixeira, dono da CBD, era a sigla antiga, para mostrar que eles tão parados no tempo. Uma brincadeira com a crítica embutida, é esse que eu acho o humor mais completo. É mais inteligente, mais rico, mais profundo. Isso que faz o humor uma forma de crítica útil”.

E o assunto, claro, chegou aos limites do humor. Marco responde sem titubear. Para ele, existe uma onda do politicamente correto muitas vezes agressiva, principalmente nas redes sociais. “É complicado, as vezes eu faço piada e recebo respostas agressivas, a ignorância das pessoas é um entrave para o humor, você é mal interpretado. Isso (o politicamente correto) chegou a um extremo que você deve descrever o Saci Pererê como afro-descendente portador de necessidades especiais. Então existe essa hipocrisia, as pessoas tem que aceitar a crítica. As vezes a brincadeira é pela brincadeira.”.

Entretanto, Marco acredita que é possível haver um equilíbrio entre esse politicamente correto excessivo e a nova moda do politicamente incorreto. “Eu não tomo partido do Rafinha Bastos, por exemplo, porque acho que ele faz mais marketing em cima do politicamente incorreto. Ele se colocou como o defensor dos desbocados, o porta bandeiras dos politicamente incorretos. Então, as vezes, as piadas perdem um pouco da naturalidade.A piada atende a essa necessidade de perfil, mas não tem graça ou é uma piada de mau gosto, como essa da Wanessa Camargo. Não acho que seja o caso de processar. Não acho que seja um drama, se fosse comigo eu não iria querer processar. Mas isso é marketing, eu não gosto disso. Os dois extremos me desagradam. O legal é fazer humor que seja construtivo, ser arrojado sem ter mau gosto, o equilíbrio. Não me identifico com as pessoas que acreditam que qualquer brincadeira é discriminação e nem com o Rafinha e os extremos opostos”.

Porque se formar é deixar as certezas para trás

30 out

por Marcela Lupoli

Quando abri a porta de casa na sexta-feira, dia 21, e na manchete da Folha li: “Gaddafi é capturado e morto”, pela primeira vez pensei que talvez não devesse mais assinar jornal impresso. Esse pensamento me fez retornar a 2008, ano em que comecei meu curso na ECA, e relembrar as discussões que agitavam a Academia naquela época.

Túnel do tempo:
Mais um dia que começava cedo no Departamento de jornalismo. Os jormats 08* adentravam as salas empolgados e falantes. A menina alta e magra, sem estojo, entrava na sala com sono. Com o jornal nas mãos, perdia-se em pensamentos nos editoriais até que encontrava a pequena de olhos azuis e gritava “meu, isso aqui é genial”. Enquanto isso, um grupo se aproximava lutando pelos restos daqueles papéis, mais precisamente pelo muitas vezes menosprezado suplemento esportivo. A moça séria, inteligente, de mochila do Corinthians, com estojo, sempre era vitoriosa, o esporte era dela. Os meninos, os 8 solitários homens, tentavam se encontrar naquele girlie show. A trilha sonora era um oferecimento dos plec-plec nos teclados. Jormats 08, primeira sala 2.0 do CJE*.

Em uma aula dessas, a professora queria entender o que os fizeram escolher essa árdua profissão. “Eu era bom em tudo”, “eu quero isso desde os três anos”, “meu amigo prestou ECA”, “eu sou uma raposa”. Impressionante como aqueles bixos* gostavam de falar, tinham opiniões e comentários sobre tudo. Mesmo assim eram assombrados pela maior discussão acadêmica da época: o fim do impresso.

A garota dos editoriais escutava: “convergência, blablabla”, “mudanças, blablabla”, “quedas nas vendas, blablabla”. Mas ela tinha certeza de que essa profecia não se cumpriria. Eles não contavam com a fidelidade do público, com a fidelidade dela ao prazer físico de sujar as pontas dos dedos com as páginas pela manhã.

Voltamos a 2011.
Traí o jornal impresso. Pensei, mesmo que por um segundo, que ele não faria falta pela manhã. Minha fidelidade era à leitura, não ao papel. Qual o ponto de ler novamente a morte de Gaddafi? A sensação era de que eu já sabia sobre aquilo há séculos. Mesmo que o jornal trouxesse novas análises em seu interior, ele apostou em sua manchete que o destaque era aquela notícia, aquela “novidade” de um século atrás. Desde aquelas discussões sobre convergência de 2008, o jornal impresso pouco mudou. A fonte ficou mais escura (o que me lembra os jornais panfletários da USP), os textos cada vez menores, as páginas mais coloridas. O ponto é: é mesmo necessário fazer com que o jornal pareça uma página da internet? Se o público quisesse uma página da internet ele não iria simplesmente à própria?

Túnel do tempo (2008):
A garota dos editoriais comenta com a menina bonita que a publicação que ela mais se empolga em ler é a recém lançada Piauí.
Menina bonita diz: “É o maior clichê aqui dizer que gosta da Piauí, né?”

2011.
Superado o trauma de ser uma bixete* clichê, continuo reafirmando, agora sem medo das represálias, que a publicação impressa que mais me empolga é a revista Piauí. Talvez porque sempre tenho a sensação de que a revista falará sobre algo que pode até já ter sido discutido imensamente na mídia, mas o fará de forma original que resultará em uma análise nova (da qual eu posso até discordar, mas que me fará pensar). Além disso, ela se importa com o prazer que dará ao seus leitores. Você não lê a Piauí somente para se informar, mas também porque isso te dá prazer.

O fundador da Revista, João Moreira Salles, em entrevista no ano de 2007:
“Posso afirmar com segurança: a piauí não é uma revista chata. Há cadernos culturais pelo País que as pessoas lêem como criança comendo espinafre, quase que por obrigação. A piauí não é assim, ela é bem humorada. Eu e o Mario Sérgio [Conti, editor da revista] insistimos para que ela tenha humor. O que não pode acontecer é confundir chatice com leitura. Não se lê a piauí como se corre na esteira – que, aliás, é a coisa mais chata do planeta.”

De 2008 até hoje, a Piauí continua com seus textos enormes, suas fotografias instigantes, suas capas irônicas. Indo na contramão de tudo o que acreditavam que salvaria o impresso. E são todas essas características que a distanciam da aposta dos jornais tradicionais que a fazem um sucesso editorial. Em 2008, todos acreditávamos que a lógica era cortar o máximo de palavras possíveis, investir em um layout didático e secar os textos cada vez mais. Era essa nossa resposta para os desafios do impresso.

Não é possível comparar uma revista de 60 mil exemplares com um jornal de 300 mil. Entretanto o sucesso da publicação de Moreira Salles ensina algo importante para as outras publicações brasileiras: nem sempre a resposta é óbvia.

Penso nos alunos que estarão prestando Fuvest em um mês. Penso se procurarão essas respostas não óbvias, penso se já virão com preconceitos conservadores sobre o papel do jornalismo. Torço para que eles tenham menos certezas do que tivemos.

*jormat08: apelido da turma de Jornalismo matutino da ECA-USP que entrou em 2008.

*CJE: departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP

*bixos: como os calouros da USP são chamados

Questão de domingo

22 out

Por Marcela Lupoli

Ninguém precisou assistir Fantástico para saber que Zeca Camargo está tentando perder peso. A “Medida Certa” se tornou muito popular nas redes sociais, nas conversas de ponto de ônibus, nos programas de humor.

O sucesso desse quadro levou 53.940 pessoas, em 11 capitais, às ruas pra caminhar com os apresentadores do programa. O país acompanhou o passo a passo da dieta do Zeca e da Renata e torceu para que eles resistissem ao pudim e ao churrasco. Renata Ceribelli, aliás, teve que ter coragem para aceitar o desafio. Ela tinha medo de não conseguir e ficar conhecida como “a jornalista gorda”…

Você provavelmente não espera que o William Bonner e a Fátima Bernardes saiam as ruas em trajes esportivos de microfone na mão chamando a galera pra fazer um polichinelo (bom, talvez, depois do twitter, até espere… mas isso é assunto para outro post!). O que provavelmente você não sabe é que o casal JN já passou pelo dominical de variedades nos anos 90 e poderíamos muito bem assistir hoje um reality show com os trigêmeos após o Faustão.

Como bem observou Maurício Stycer em seu blog, o Fantástico está investindo nesse “jornalismo reality show” que coloca os profissionais como cobaias personagens de suas próprias reportagens. Se por um lado causa certa estranheza os ver no centro da produção, por outro, talvez essa experiência aproxime o público do profissional e demonstre que o jornalista não é simplesmente “os olhos da verdade”.

Jornalismo? Peraí, vai me falar que “Menina Fantástica” é jornalismo? Hum… Acho que não.

E aquela reportagem sobre o poder das milícias de 2008? Ah, essa sim!

Fato é que desde que foi criado, em 1973, o Fantástico tem uma liberdade de estilo que não encontramos em outros programas na televisão. Para se ter uma ideia, o programa já foi dirigido pelo Manoel Carlos (sim, aquele das novelas sobre o Leblon!) e apresentado por jornalistas do calibre de Cid Moreira até por celebridades como Carolina Ferraz.

O que raios, então, é o Fantástico? O programa se define como uma revista semanal eletrônica. Assim, ele busca ter notícias de última hora, grandes reportagens, series, perfis com celebridades, esportes… Junte tudo isso, coloque em quase três horas de duração e tente manter o ritmo.

Com essa mistura, muitas vezes sentimos que o programa não tem uma hierarquia de notícias como esperamos em um jornalístico. Séries, reportagens e notícias se misturam no fundo azul e a Patrícia Poeta que faça caras, bocas e vozes para tentar encaixar o próximo assunto sem que pareça ter vindo absolutamente do nada. Isso fica bem visível no site:

É no mínimo estranho que “Tande e Lizandra contam como se conheceram no Faustão” divida o destaque com “Transporte alternativo é principal fonte de renda de milícias”.

Talvez por esse caráter de experimentação que faz parte do programa desde sua estreia, falte no Fantástico uma linha editoral, uma maior comunicação entre as reportagens, os programas de ficção e os quadros fixos. Muitas vezes temos a sensação de que o programa se perde e nos perdemos juntos, nunca sabendo o que esperar. Abrir com a Gisele Bündchen ou com o FB do Morro do Alemão é uma questão de domingo.

A resistência

12 out

Por Marcela Lupoli

Revolução! Esse título é uma piada. A palavra “revolução” poucas vezes é usada adequadamente e nesse blog, definitivamente, não é o caso. Estamos falando aqui das inúmeras mudanças que a comunicação (e toda sociedade) presenciou e fez parte desde a Revolução Tecnológica nos longínquos anos 60!

Se houve alguma revolução, o jornalismo não é o melhor meio para ilustrarmos essa quebra de padrões, esse rompimento com o tradicional. Nos jornais, nas emissoras de televisão, nas revistas tudo é ainda muito semelhante ao que era feito há 40 anos. Não usamos mais a máquina de escrever, a imagem é “high definition”; mas o lide e a escaleta continuam soberanos.

Muitos ainda sentem prazer em sujar os dedos com o jornal que chega na porta de casa no domingo (como a autora que vos fala), muitos ainda se emocionam com a voz solene que narra os acontecimentos da semana e há aqueles que chegam a dar boa noite para o moço da televisão. Mas admitamos, não é a maioria.

Quem tem vinte e poucos anos agora já cresceu em um mundo onde o espaço se tornou mais subjetivo: televisão a cabo, celular, internet. Crescemos com os meios de comunicação se modificando e incorporamos essa sensação de que tudo ainda vai se transformar, de que não adianta esperarmos algo para daqui cinco anos, porque , com certeza, seremos surpreendidos.

Bom, imagine quem nasceu no meio dos anos 90. Imagine que essas pessoas não conhecem um mundo desconectado, um mundo que não possibilite organizar seus interesses da forma que mais lhes agrada. São pessoas que enquanto leem um livro sentem falta de dar ctrl F para encontrar o trecho desejado. É uma geração que cresceu podendo editar suas próprias imagens, fazer seus próprios vídeos, postar, compartilhar.

É claro que a comunicação com essas pessoas não pode se dar da mesma forma que era realizada em outras décadas. Parece lógico, mas mesmo assim há uma enorme resistência do jornalismo “tradicional” em mudar essa realidade. Isso se torna ainda mais polêmico quando a palavra entretenimento entra em jogo. Há diversos fatores históricos que serão discutos na página “home” e que explicam, parcialmente, alguns dos motivos que fazem com que o jornalismo tenha verdadeiro pânico de entreter.

Contudo, a mudança é inevitável. Estamos bem longe de uma revolução, mas já existem alguns jornalistas de pé por aí tentando inventar alguma coisa nova. Nos próximos posts vamos analisar algumas dessas tentativas de modernização do jornalismo. E vocês vão nos ajudar a pensar o jornalismo do futuro. O que está dando certo, o que está dando errado? Vamos descobrir isso juntos!

Quem tem medo do entretenimento?

10 out

por Marcela Lupoli e Sheila Vieira

Jornalismo e entretenimento. Para muitos seria uma heresia colocar os dois no mesmo período, mas por quê? O que leva as pessoas a acreditarem que o jornalismo estaria imune a uma sociedade que incorpora o entretenimento nos mais diferentes aspectos da vida cotidiana?

Nesse post, vamos analisar alguns aspectos históricos que acreditamos terem contribuído para essa visão que acredita que jornalismo não deve entreter: 

Quer divertir os outros? Vire artista
Houve um tempo em que os jornais publicavam ficção, como os folhetins do José de Alencar que os vestibulandos leem no formato de livro. Atualmente, o texto mais “literário” num jornal de grande circulação talvez seja a coluna de humor do José Simão, na Folha de S. Paulo. Isso tem a ver com uma clara opção histórica do jornalismo de remover qualquer tipo de lirismo de sua escrita. O formato engessado se perpetua nas escolas de Comunicação e inibe o que foge do padrão, seja ele bom ou ruim. 

Nossos amigos de Frankfurt
Se você é um estudante de comunicação, certamente já estudou (ou deveria ter estudado!) os pensadores da Escola de Frankfurt. Se não é do ramo, nós explicamos! Certamente todos vocês já ouviram falar de “Indústria Cultural” em algum momento. Essa expressão apareceu pela primeira vez na obra “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para os pensadores, essa indústria promoveu uma união entre arte superior e inferior que gerou prejuízo de ambas. A superior perde sua seriedade e a inferior sua “indomável força de oposição”. Essa indústria que tudo homogeiniza, para Adorno, trata o consumidor como seu objeto, não como seu soberano. É importante salientar que esses pensadores viram de perto regimes totalitários, como o nazista, usarem o que chamavam de Indústria Cultural, com sucesso, para sustentar seus governos tiranos. 

Debord e seu espetáculo
Se os pensadores de Frankfurt enxergavam na comunicação de massa uma forma de imposição de pensamento e manutenção de governos liberais, Guy Debord foi além com sua “Sociedade do Espetáculo”. Em sua popular obra de 1967, o francês argumenta que esse espetáculo a que se refere vai além da dominação cultural de massa. A degradação da vida da sociedade pós-guerra faz com que as pessoas busquem no espetáculo o que lhes falta na realidade do cotidiano, assim passam a consumir imagens.

Em 1988 (em seus “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo”), Debord afirma que não só acertou em todas suas análises como acredita que a situação tornou-se ainda mais forte após esses vinte anos. Para ele, vivemos um tipo de “espetáculo integrado”que modelou a sociedade na sua própria imagem de tal forma que não enxergamos alternativas a ele. O pensador acredita que esse poder é muito mais forte do que o totalitarismo, já que vem “maquiado de democracia”. 

Porém, como sabemos, o mundo mudou UM POUQUINHO desde então: 

O meio é a mensagem
Outro autor carimbado em qualquer faculdade de Comunicação, o canadense Marshall McLuhan tinha uma visão um pouco mais simpática em relação aos meios de comunicação. Na verdade, eles os via como uma extensão do ser humano, ao invés de algo que ele consumia. Em sua série de previsões, entre as quais a “aldeia global” (ou o que se chama hoje de sociedade em rede), McLuhan defendia que as sensações proporcionadas pela tecnologia eram mais importantes do que o conteúdo que elas transmitiam.

As pessoas veem TV, filmes e acessam computadores para fazer parte dessa ‘mágica’ e isso dificulta o pensamento linear e exigente de concentração dos livros, por exemplo. Nossos cérebros estão programados para ver o mundo de forma híbrida, não-linear e fragmentada. E a mídia é mais uma experiência sensória do que um mero canal de transmissão de mensagens. Dessa forma, os meios de comunicação deixam de ser entendidos como agentes de manipulação do governo para serem aceitos como uma evolução natural da sociedade. 

Os jornalistas perderam os super-poderes
A internet conseguiu concorrer com a imprensa escrita, a TV e o rádio ao mesmo tempo, fazendo com que todas as mídias anteriores repensassem seu métodos. Porém, o maior baque foi o poder que o internauta passou a ter de encontrar informação por contra própria. Seja pelo Google, pela Wikipédia, pelos fóruns ou pelas redes sociais, as pessoas às vezes chegam a um dado no mesmo tempo que os jornalistas. Em alguns casos, quanto mais se sabe do procedimento de apuração, checagem e edição, menos o público confia naquele veículo.

Isso tira dos repórteres a aura de desbravadores da verdade e mediadores soberanos da realidade. Os jornalistas nunca foram tão questionados como agora. Por isso, é fundamental que a imprensa aprenda a apresentar conteúdo de forma atrativa, acolhedora e criativa, ao invés de vomitar números, declarações e dados oficiais como se fosse o único canal capaz de fazê-lo.

Porém, mesmo a duras penas, o jornalismo está mostrando alguns sinais de renovação. Em duas seções deste blog, vamos entrar em detalhes sobre as experiências que a imprensa vem fazendo, aceitando o entretenimento e aprendendo a dosar a função de informar e agradar o público. Confira os posts:

A resistência

Liberou geral no Jornalismo Esportivo

Questão de domingo

O Pan na Record: ótimo, só que ao contrário

Porque se formar é deixar as certezas para trás

Manchete diferente, mesmo jornalismo