Quem tem medo do entretenimento?

10 out

por Marcela Lupoli e Sheila Vieira

Jornalismo e entretenimento. Para muitos seria uma heresia colocar os dois no mesmo período, mas por quê? O que leva as pessoas a acreditarem que o jornalismo estaria imune a uma sociedade que incorpora o entretenimento nos mais diferentes aspectos da vida cotidiana?

Nesse post, vamos analisar alguns aspectos históricos que acreditamos terem contribuído para essa visão que acredita que jornalismo não deve entreter: 

Quer divertir os outros? Vire artista
Houve um tempo em que os jornais publicavam ficção, como os folhetins do José de Alencar que os vestibulandos leem no formato de livro. Atualmente, o texto mais “literário” num jornal de grande circulação talvez seja a coluna de humor do José Simão, na Folha de S. Paulo. Isso tem a ver com uma clara opção histórica do jornalismo de remover qualquer tipo de lirismo de sua escrita. O formato engessado se perpetua nas escolas de Comunicação e inibe o que foge do padrão, seja ele bom ou ruim. 

Nossos amigos de Frankfurt
Se você é um estudante de comunicação, certamente já estudou (ou deveria ter estudado!) os pensadores da Escola de Frankfurt. Se não é do ramo, nós explicamos! Certamente todos vocês já ouviram falar de “Indústria Cultural” em algum momento. Essa expressão apareceu pela primeira vez na obra “Dialética do Esclarecimento” de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Para os pensadores, essa indústria promoveu uma união entre arte superior e inferior que gerou prejuízo de ambas. A superior perde sua seriedade e a inferior sua “indomável força de oposição”. Essa indústria que tudo homogeiniza, para Adorno, trata o consumidor como seu objeto, não como seu soberano. É importante salientar que esses pensadores viram de perto regimes totalitários, como o nazista, usarem o que chamavam de Indústria Cultural, com sucesso, para sustentar seus governos tiranos. 

Debord e seu espetáculo
Se os pensadores de Frankfurt enxergavam na comunicação de massa uma forma de imposição de pensamento e manutenção de governos liberais, Guy Debord foi além com sua “Sociedade do Espetáculo”. Em sua popular obra de 1967, o francês argumenta que esse espetáculo a que se refere vai além da dominação cultural de massa. A degradação da vida da sociedade pós-guerra faz com que as pessoas busquem no espetáculo o que lhes falta na realidade do cotidiano, assim passam a consumir imagens.

Em 1988 (em seus “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo”), Debord afirma que não só acertou em todas suas análises como acredita que a situação tornou-se ainda mais forte após esses vinte anos. Para ele, vivemos um tipo de “espetáculo integrado”que modelou a sociedade na sua própria imagem de tal forma que não enxergamos alternativas a ele. O pensador acredita que esse poder é muito mais forte do que o totalitarismo, já que vem “maquiado de democracia”. 

Porém, como sabemos, o mundo mudou UM POUQUINHO desde então: 

O meio é a mensagem
Outro autor carimbado em qualquer faculdade de Comunicação, o canadense Marshall McLuhan tinha uma visão um pouco mais simpática em relação aos meios de comunicação. Na verdade, eles os via como uma extensão do ser humano, ao invés de algo que ele consumia. Em sua série de previsões, entre as quais a “aldeia global” (ou o que se chama hoje de sociedade em rede), McLuhan defendia que as sensações proporcionadas pela tecnologia eram mais importantes do que o conteúdo que elas transmitiam.

As pessoas veem TV, filmes e acessam computadores para fazer parte dessa ‘mágica’ e isso dificulta o pensamento linear e exigente de concentração dos livros, por exemplo. Nossos cérebros estão programados para ver o mundo de forma híbrida, não-linear e fragmentada. E a mídia é mais uma experiência sensória do que um mero canal de transmissão de mensagens. Dessa forma, os meios de comunicação deixam de ser entendidos como agentes de manipulação do governo para serem aceitos como uma evolução natural da sociedade. 

Os jornalistas perderam os super-poderes
A internet conseguiu concorrer com a imprensa escrita, a TV e o rádio ao mesmo tempo, fazendo com que todas as mídias anteriores repensassem seu métodos. Porém, o maior baque foi o poder que o internauta passou a ter de encontrar informação por contra própria. Seja pelo Google, pela Wikipédia, pelos fóruns ou pelas redes sociais, as pessoas às vezes chegam a um dado no mesmo tempo que os jornalistas. Em alguns casos, quanto mais se sabe do procedimento de apuração, checagem e edição, menos o público confia naquele veículo.

Isso tira dos repórteres a aura de desbravadores da verdade e mediadores soberanos da realidade. Os jornalistas nunca foram tão questionados como agora. Por isso, é fundamental que a imprensa aprenda a apresentar conteúdo de forma atrativa, acolhedora e criativa, ao invés de vomitar números, declarações e dados oficiais como se fosse o único canal capaz de fazê-lo.

Porém, mesmo a duras penas, o jornalismo está mostrando alguns sinais de renovação. Em duas seções deste blog, vamos entrar em detalhes sobre as experiências que a imprensa vem fazendo, aceitando o entretenimento e aprendendo a dosar a função de informar e agradar o público. Confira os posts:

A resistência

Liberou geral no Jornalismo Esportivo

Questão de domingo

O Pan na Record: ótimo, só que ao contrário

Porque se formar é deixar as certezas para trás

Manchete diferente, mesmo jornalismo

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5 Respostas to “Quem tem medo do entretenimento?”

  1. Gabriela 10/13/2011 às 20:16 #

    Parabéns pelo blog, meninas! Achei uma excelente ideia! Muitas pesquisas ficam paradas na universidade, sem chegar ao conhecimento de quem é de fora da academia, o que é uma pena. As pesquisas precisam ser divulgadas, divididas, postas em prática – e não consigo pensar num espaço mais democrático do que a internet!
    Gostei muito do tema do TCC de vocês, um assunto que realmente precisa ser pensado. O mundo mudou tanto só na última década, é estranho estarmos presos a moldes tão antigos – e não só no jornalismo. Mudanças são necessárias! Vou acompanhar as análises de vocês sobre elas!
    Beijos!

  2. Juliana 10/13/2011 às 22:58 #

    Galera, acho que vcs me explicaram aqui a teoria do Mcluhan melhor do que eu já tinha ouvido em muitas aulas!! Juro!!!! hahahahaha

    Gostei muito da escolha e da abordagem do tema de vocês! Tem muito a ver com tudo o que passamos durante o nosso curso. Nossas ilusões com a profissão sendo destruídas a cada aula, a falta de perspectiva na área cada vez mais clara, a decepção com a área e com o curso crescendo a cada semestre! (#drama) 😛
    Como vc falou muitos de nós já cresceu em meio a uma “aldeia global”. Mas muitos que ainda escolhem a graduação de Jornalista, vêm com uma visão datada da profissão que não corresponde mais ao que ela é hoje.

    Enfim! Achei o tema de vocês muito relevante para o jornalismo atual e espero acompanhar mais as reflexões de vocês! 🙂
    Beijos!

  3. Lê Scalia 10/14/2011 às 14:43 #

    É justamente isso que vcs falaram no final… hoje, você não precisa mais do jornalista para os fatos. A internet possibilita isso… exemplo recente foi a morte do Steve Jobs, que foi noticiada antes pelo twitter, e só então pelos jornais (inclusive os online). O importante agora é como reconquistar esse público… acho que não só despejar informações. Mas da mesma forma que se pode encontrar qualquer informação na internet, a discussão a respeito e a abordagem adequada credenciam o jornalismo “tradicional” a complementar isso e reencontrar seu espaço.
    Sobre o jornalismo literário q vcs falaram no início, lembrei do “New Journalism”, que eu acho muitíssimo interessante (e mais, não facilmente substituível!).
    Agora, que orgulho! As duas até fizeram Teorias da Comunicação parecer legal (fail haha). McLuhan, Adorno, Horkheimer… meus 5 anos de faculdade passaram na minha frente (e meu sofrimento tb). Aldeia Global, meio = msg, Indústria Cultural… se bem que nem reclamo, concordando ou não, pelo menos o pensamento deles era claro. (E vcs foram muito didáticas, meninas hahaha)

    Tão de parabéns pelo TCC e pelo blog 🙂
    (Aliás, gostei particularmente da disposição das abas hahaha)

  4. Marcelo 10/21/2011 às 22:53 #

    Parabens pelo blog,muito legal esta iniciativa de colocar público suas pesquisas e reflexões;interessante tambem questionar a “nova cara” e a evolução do jornalismo.
    Boa sorte no TCC.

  5. Jader Magri 10/22/2011 às 18:08 #

    Parabéns pelo blog e boa sorte com o TCC =) – Então, eu acho que é isso mesmo que vocês falaram, com tanta informação nos dias de hoje, os jornalistas têm sido cada vez mais questionados e para se destacar é preciso de “um algo a mais”. Sobre essas inovações, como no jornalismo da Globo onde ficou tudo “menos sério”, eu particularmente acho que eles passam do limite. Claro que é legal um programa mais descontraído, mas que isso não deixe de levar ao público o que mais importa: a informação. Tipo, no fantástico as vezes perdem mais tempo “brincando” do que mostrando os gols – que em alguns jogos nem mostram todos, e noutros casos não mostram o replay de um golaço e tal…

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